quarta-feira, 26 de outubro de 2011

COMUNICADO AO LEITOR

As postagens feitas neste blog são uma forma de o autor dar vazão a algumas das coisas que vem pensando, sentindo e escrevendo atualmente. E nesse sentido, gostaria de pedir, ou sugerir, que os leitores, visitantes, se poderem, comentem sobre as postagens. Estas não são de forma alguma uma tentativa de estabelecer verdades nem tampouco de autoprojeção. A escrita é na verdade um espelho no qual podemos nos ver, e muitas vezes dar risadas de nós mesmos (o que reputo quase sempre como o mais importante). Apenas compartilho estes textos para que possam perceber, por ventura, coisas além daquelas retratadas. Como também, possivelmente, estabelecer ressonância com algo semelhante que estejam sentindo ou pensando sobre o tema em questão.

Veja esse blog foi criado numa noite de insônia quando eu ainda tinha acesso à internet em casa, em Natal. E quando pensei em um nome para o blog me veio a frase “aos mortos da ilha da ilusão” de uma música de Zé Ramalho, Orquídea Negra, acho. E como ainda acho que a vida tem mais significado que a morte, preferi colocar Aos Vivos da Ilha da Ilusão. Achei que soava poético.

E esse sentido, acredito que Vivos seriam e são aqueles que almejam minimizar as ilusões em que se encalacram, escravizando-se, paralisando-se, inclusive na própria persona. Estar vivo é uma atividade inerente ao viver, ou pelo menos o deveria ser. Qualquer comparação com o Mito da Caverna de Platão é mera coincidência, embora talvez mantenha alguma ligação, que de forma alguma foi antevista de início. Nesse sentido, acredito que cada um pode ir à busca de se tornar vivo, desde que queira. E que isso é uma busca pessoal sempre.

Adiante sempre.

É POSSÍVEL UMA ESCOLA PARA A VIDA?

Muitos pensadores ditos construtivistas tentam botar a vida dentro da escola. Isso é como tentar fazer brotar uma flor dentro de uma cela. É cansativo, é desgastante, e praticamente não tem efeito algum. O mais indicado em minha opinião, seria jogar a escola na vida.

Veja. Nada contra o construtivismo, em suas muitas acepções. Muito pelo contrário. Tal concepção de mundo acerca do conhecer e do aprender “não está por fora” como diriam alguns. O problema é a institucionalização. Algo que sinaliza para a liberdade, como essa postura, não pode sobreviver dentro de um mundo que já foi formatado de inicio. Nada que tenha esta característica libertária poderá ficar enclausurado em muros, cronometrado, regido a toques de sirene.

Não sei se a memória é algo como um palácio onde estariam guardadas nossas lembranças, como falava Santo Agostinho, mas que de vez em quando nos surge algo que não estava aqui e que por certo talvez estivesse em outro lugar, isso nos parece indiscutível. Lembro de um dia o professor Djanilson Ramalho ter me falado de um texto em que Philippe Perrenoud chama a atenção ou discute (acho que não chegamos a aprofundar o assunto: a sirene tocou no momento) o fato de as ideias de Gardner, acerca das Múltiplas Inteligências, não ter decolado na educação. Tenho minha opinião sobre isso (não sei se é a mesma de Perrenoud, afinal não li o texto): isso se deve ao fato de que Gardner sinaliza para a liberdade, ao defender que cada aluno tem uma habilidade que tende a desenvolver mais, e que isso deveria ser desenvolvido pela escola e não extirpado. Ou seja, àquele aluno que não sabe matemática, mas sabe desenhar devem-se dar condições para que desenvolva suas capacidades artísticas. Mas isso no fundo não interessa à instituição escola, embora muitos professores possuam essa postura e teimem nesse sentido. Ainda bem!

O que impede a escola de proceder desta forma é o fato de que logo vem à tona a seguinte idéia, talvez inconsciente (ou não): será que desenhando ele terá condições de ganhar dinheiro e comprar, se inserir no mercado? No fundo, a escola, nos moldes que a conhecemos, é uma fábrica de futuros adeptos do mercado, do mercantilismo, desse escambo moderno que não cansa de moer vidas ao pé do balcão. Pronto está dito!

No geral, as escolas aprisionam as consciências. Deveriam ser espaços de troca de experiências, mas acabam sendo ambientes doutrinadores. E uma vez estando dentro desse calabouço, é muito difícil não aderir à suas práticas, pois são muitas as pressões (exames dos mais diversos, Enem, Vestibular, Prova Brasil, SAEB e etc..). Se você quiser dar o salto em busca do que realmente vai importar para a maioria daqueles que ali estão (na sala de aula) tem que ir de encontro a tudo isso.

Mas alguém me diria: então você vai ensinar o quê? Pra quê? Vai formar alienados? A isto respondo serenamente: não. Apenas deve-se ser mais atento às reais necessidades existências daquele vivente que está ali na nossa frente. Isso não exclui o fato de que eu possa comentar com eles, por exemplo, as explicações que um certo inglês do século XVII deu para o fenômeno da queda dos corpos próximos à superfície da Terra - tendo o cuidado de mostrar que esta teoria não é a única explicação para este fato. Ou seja, viver e pensar a existência é muito mais importante do que apenas entender as leis de Newton.

Mas repito: fazer isso é muito difícil no castelo medieval que é a escola (com todo respeito ao medievo, que inclusive ainda conhecemos tão pouco, ou de forma tão distorcida). Porque para conversar, para trocar ideia, precisa-se de tempo, do tempo da escuta, do erro e do acerto. Do tempo que proporcionará a confiança e a segurança do jovem em seu mestre e vice-versa. Quase nada disso é valorizado hoje nessa escola ultra-super-mega-acelerada. E se você é um professor de Física então, seus problemas são ainda maiores. Vocês já viram o programa de Física que é exigido que os alunos saibam nesses exames que elenquei acima? Se não, comprove você mesmo. É como se a cada aula professores e alunos tivessem condições de dar conta de concepções epistemológicas e filosóficas complexas, que levaram séculos para ser construídas – e que inclusive ainda estão sendo aperfeiçoadas. Como já disse em outros textos, exige-se que se carregue o mundo - tal como foi explicado até hoje - nas costas. Acerca disso temos que afirmar: Não podemos!!!

Numa escola para a vida, os muros devem estar restritos à sua estrutura física, não circunscrevendo as mentalidades.

Não somos entidades cibernéticas como aquelas retratadas no filme Matrix (alto filme), nas quais se implantam cartuchos de informação de acordo com a necessidade. Temos sentimentos. Possuímos o livre arbítrio. Interessa-nos, além desse catatau de coisas que foram criadas por humanos que vieram antes de nós - motivados por suas necessidades -, as nossas próprias viagens astrais motivadas por nossas próprias necessidades.

Por isso entendo o que disse um certo mutilado de guerra que também era professor (que se deixe claro, ele não abandonou o barco, como de início o texto pode fazer entender, apenas mudou a direção), por nome Paul Feyerabend:

“Esses foram os pensamentos que passaram por minha cabeça enquanto eu olhava para meu público, e eles me fizeram recuar com repugnância e terror da tarefa que se presumia que eu executasse. Pois essa tarefa – isso agora se tornou claro para mim – era a de um feitor de escravos muito refinado, muito sofisticado. E um feitor de escravos eu não queria ser. [...] Experiências como essa me convenceram de que procedimentos intelectuais que abordam um problema por meio de conceitos estão no caminho errado e passei a interessar-me pelas razões do tremendo poder que esse erro agora tem sobre as mentes. [...] Queria saber o que faz com que pessoas que têm uma cultura rica e complexa deixem-se seduzir por abstrações secas e mutilem suas tradições, seu pensamento e sua língua a fim de que possam acomodar essas abstrações. [...] É sinal de presunção pressupor que se tenham soluções para pessoas de cuja vida não se compartilha e cujos problemas não se conhecem. É insensatez pressupor que tal exercício de humanitarismo distante terá efeitos que sejam agradáveis às pessoas envolvidas.”


É caro colega, como disse o velho Raul Seixas, alguns meses antes de partir:

“Se você correu, correu, correu tanto,
Não chegou a lugar nenhum,
Baby, oh baby...
Bem vindo ao século XXI...”

É preciso recolher os escombros e ir sempre adiante.
Dias Lopes

sábado, 22 de outubro de 2011

AVALIAR

Avaliar é parar.

Com o tempo na cara.

É o papel e você

Sentado na sala.

Querendo fugir.

Do tudo e do nada.


Dias Lopes

QUAL FLOR

Qual flor, simplesmente

Ao sol e ao vento

Alheio a tudo

Que é movimento



Dias Lopes

ABANDONANDO-SE

Naquele belo dia de segunda-feira,

Ele acordou.

Arrumou tudo como sempre.

Saiu no mesmo horário.

Pela mesma porta de sempre.

E abandonou-se...

Não queria mais ...

Não queria mais um papel apenas.

Decidiu mergulhar no medo do mundo.

Resolveu desamedrontar-se.

Dispersar-se.

Despedaçar-se.

Deixar de ser um pedaço e voltar ao todo.

O todo sem nome.

Sem linguagem de cena.

O todo sem gente-com-medo-do-medo.


Dias Lopes

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Mais algumas pinturas de Jadson Oliveira

Conheci Jadson Oliveira na Residência Universitária do Campus UFRN em Natal. Na época ele cursava História e eu Física. Logo depois voltei a Natal para cursar Direito e Jadson, por felicidade estava na mesma turma que eu. Soube recentemente que formou-se este ano. Aquela mistura de pequeno-burgueses com tecnicismo jurídico me enchia a paciência. Abandonei.

Tenho muitas saudades daqueles nossos tempos meu amigo Jadson. Soube outro dia que você está pintando novamente. Que bom. São eras que passam na vida da gente e que de uma forma ou de outra ficam registradas.

Que saudade das mangueiras, dos cajueiros, das conversas, das iguanas, do rock´n roll. Lembro de Jadson pintando ao som de People are strange do Doors, ou de Comfortable Numb do Pink Floyd, recluso num canto, aproveitando a penumbra tão necessária à sua obra. A sua pintura não era algo fixo, dizia que a conversa, os nossos insight´s, influenciavam o quadro e vice-versa. Puro êxtase (sem trocadilhos, por favor).

Seu estilo, como eu lhe disse uma vez, é uma mistura de Cubismo, com Surrealismo, com História em Quadrinhos e Desenho Animado. E seguindo essa linha, dizia que nunca sabia muito no que ia dar um quadro quando do começo, apenas o final - que não era o fim, mas uma pausa - podia sinalizar alguma coisa.

Como diz um outro amigo, Keep on the beat, meu amigo! Espero encontrá-lo por ai. Lembrando daqueles tempos:


MIRANTE DA BARREIRA



Sem função


Sob a árvore ... pássaros cantam


Nascentes abertas


Construindo para si, apenas


Poltronas autóctones espalhadas por todos os cantos


Amigos, conversa, delírios, as luzes da cidade, acontecimentos


Um feudo-paraíso


Bebendo, cantando, tecendo narrativas à fogueira


A cidade e o homem em tela


Conhecimentos, artes, todos os gostos


Profissionais e engrenagens observadas


E um profundo sentimento de Paz...








Respectivamente:

1 - Com base num documento civil

2 - Exercício em preto e branco

3 - As plêiades

4 - O São João de Mané Vito (roendo unhas)

5 - Galáxia da casca de nós














quarta-feira, 5 de outubro de 2011

AS PERIPÉCIAS DO PODER

Como uma areia movediça, o poder traga os humanos. Distorce as identidades, modifica, induz e gerencia as decisões. Quem almeja se emaranhar nesse terreno deve ter claro isso, inclusive para não cair em um discurso tributário da hipocrisia. Nesse sentido, na minha opinião, uma das maiores obras já escrita nesses tempos humanistas é O Príncipe, de Nicolau Maquiavel.

A problemática levantada por esse italiano muitas vezes é considerada com sendo um incentivo à tirania. É preciso perceber que este pensador estava escrevendo para um monarca e isso deve ter influenciado a forma do texto. Muito do que o pensador poderia estar querendo dizer pode na verdade estar nas entrelinhas, como em muitas outras da época, em que os autores utilizaram este recurso. E, para além disso, as grandes obras possuem a peculiaridade de se tornarem chaves significativas, perdendo a suposta identidade inicial que possivelmente motivara sua constituição.
O fato é que a mensagem de O Príncipe é mais atual do que nunca, para o bem ou para o mal: todas as ações do poder são sempre no sentido da sua própria constituição e/ou perpetuação. É duro meu caro, mas os exemplos são constantes, comprovando a máxima desta obra.

Por isso entendo que essa decisão da esquerda da cidade de Olho D’água do Borges em fazer uma fusão com o grupo liderado pelo médico Abel Belarmino Filho me entristece um pouco. Não porque sou um membro da esquerda deste município. Não se trata aqui de uma posição partidária e de discordância interna, como as que constantemente acontecem nos partidos políticos. Nunca fui nem sou integrante de partido político. E para aqueles que dizem que quem não é situação é oposição, ou vice-versa, gostaria de informar que esse não o único modelo lógico que temos acesso. Um coisa pode ser e não-ser ao mesmo tempo (a psicologia da Gestalt trata disso muito bem, inclusive), como também não ser um nem outro. Mas isso fica muito difícil de perceber quando se vê a realidade como uma briga de contrários: bem/mal, certo/errado, direita/esquerda etc.. Nós ainda estamos engatinhando na tarefa de estar além do bem e do mal, no caminho do além homem.

Fico triste porque vejo adiado por tempo indeterminado a possibilidade de termos uma administração que congregue a participação popular, o poder de decisão do povo, a constituição de espaços de liberdade relacionados à cultura, como grupos de teatro realmente independentes, clubes de leituras, fundações, e etc.. E me deixa inclusive com certo ceticismo o fato de perceber que alguns dos jovens que poderiam conduzir o município para esta transição estão apoiando tal empreitada. Mas são as peripécias do poder. Ele muitas vezes nos traga, lembra, ele age sorrateiramente, deslizando pelas paredes do inconsciente. Digo isso porque muitos amigos não concordam com essa conjuntura, mas como se relacionam com a política, acabam tendo que acostumar-se a esse tipo de coisa.

De forasteiro nós já estamos cheios! Se esses, que querendo ou não, possuem raízes no município agem desta forma gelada, insensível, truculenta em relação às demandas da cidade imagine alguém nem tais laços possui? Nesse sentido, eu dou a César o que é de César. Até porque acho que todos têm conhecimento de como as coisas funcionam em Rafael Godeiro e Almino Afonso. Sinceramente acho que não queremos isso para Olho D’água – ou pelo menos eu achava que não queríamos. E sinceramente me espanta ver uma oposição que tantas vezes já foi ludibriada, enganada, cair em mais uma esparrela. Realmente me espanta. Não aprendeu nada com os erros, com as experiências passadas?

É ai que faço a seguinte pergunta: o que se realmente vale, ganhar ou fazer aquilo que achamos que deve ser feito? Porque quando se quer apenas ganhar, se recorre a todos os meios. Agora quando agimos de acordo com o que nos move, isso já nos basta, não ansiamos por recompensa, pois estamos inteiros na coisa, somos aquilo, nada nos interessa mais do que a caminhada. Essa é a diferença de quem anseia pelo poder e quem apenas faz.

Vendo a entrevista do jovem Abel Neto no blog ODB News, percebemos as características centralizadoras e imperialistas dos comandantes do grupo. Deixou transparecer na fala a intenção de uma certa unificação, centralização das decisões referentes a Rafael Godeiro, Almino Afonso e Olho D’água nas mãos de poucos. Todos nós sabemos aonde e em que todo império desemboca, quais são suas nefastas conseqüências para aqueles que não estão e, inclusive, não querem estar à sombra do poder.

Devagar e sempre!

Prof. Adaécio Lopes

terça-feira, 4 de outubro de 2011

HOJE É DIA DE SÃO FRANCISCO DE ASSIS

Não entendem
Porque ele pede.
Não é porque não quer
Mas porque não pode.
Não pode, pois sua vida
Não é pra ser aquilo.
Viver para ele
Não é um estilo.


Vive apenas.
Como uma antena.
Não pensa em som.
E nem em imagem.
Não é ponto fixo
Mas uma passagem


Tempo precioso
Para o próprio ser
Recolhe-se em si
Assim é o viver


Não usa o tempo
Das roupas do mundo
Joga o relógio
Num lago profundo

O MASSACRE DO PROFESSOR NO JORNAL NACIONAL

Chego à moradia. Ligo a televisão e vejo notícias sobre o movimento grevista dos professores do estado do Ceará, no Jornal Nacional, da Rede Globo de Televisão. Entendi que os professores protestam contra uma lei que visa fixar o piso salarial em aproximadamente 1100 reais para Nível Médio, desconsiderando o escalonamento pecuniário àqueles que concluem especialização, mestrado ou doutorado. O que independente que qualquer coisa é um absurdo. Aqui no RN nem se fala. É como diz um amigo meu, quando me perguntarem qual a maior instância da Justiça do país, eu responderei: O Tribunal de Justiça do RN!
Mas vamos à matéria sobre o incidente com os professores do Ceará. Várias foram as questões que me despertaram a atenção quando daquela matéria.
Primeiro. Os professores queriam adentram no prédio da Assembléia Legislativa do Ceará. Afinal, esse pessoal de gravata e de terno não vive dizendo que lá é a casa do povo?! Pois bem, eles não estavam invadindo o prédio como diz o título da matéria do referido jornal, mas querendo assistir, acompanhar a votação da situação que, como bem frisou um dos manifestantes, iria decidir a vida dos que ali estavam e de outros milhares de professores. O argumento de que os educadores poderiam intervir de forma negativa nos trabalhos dos deputados devido ao estado emotivo em que se encontravam não se sustenta. Impedir o povo de entrar na sua casa por estarem em estado emotivo? Um contra senso. Quantas vezes os deputados foram impedidos de freqüentar estas casas por discutir, partir para a agressão e até se esbofetear? E por votarem contra os interesses do povo? Nenhuma! Essa desculpa não cola senhores. Para impedir a passagem dos educadores, o poder usou a força, como de costume. Educadores agredidos fisicamente por reivindicar um direito. A cara do Brasil...
Outro absurdo foi o fato de o presidente da assembléia declarar que foi obrigado a agir daquela forma contra os educadores. Obrigado por quem?! Isso é jogo de retórica, quem decidiu “correr o ramo” nos professores foi você! Represália! Arbitrariedade! Uso abusivo da força! Esses são as reais formas de caracterizar esta ação. Não distorça a situação, culpando quem na verdade é vítima.
E o maior de todos os absurdos. O apresentador Willian Bonner ao final da reportagem, completa: “os professores querem um valor acima do que foi votado pela assembléia legislativa”. Nós sabemos que os jornalistas possuem um poder de distorção descomunal, e fazem isso de forma consciente e intencional. Bonner, não é que os professores querem um valor acima daquele, é um direito deles! Há entre uma coisa e outra uma diferença intransponível. Não nos enganemos, não foi uma displicência do âncora global. A palavra “querem” foi pensada cuidadosamente para este texto. Isso porque “querer” remete ao entendimento de que os educadores, com esta postura, estão sendo “mais uma vez intransigentes, folgados, abusivos” como alguns desinformados dizem por aí. Ou seja, este termo lança a falsa ideia de que os professores estão querendo mais do que de fato têm direito. O que na verdade, é justamente o contrário. Essa expressão penaliza quem a décadas já é penalizado.
A palavra “querem” fomenta tal sentimento e pensamento a quem está assistindo ao jornal. Ela induz e distorce o entendimento, vicia a informação e alicia a compreensão. Uma total incongruência. Inclusive porque ele sabe que tal direito ao piso aliado à carreira é constitucional desde 2008, justamente porque informações relacionadas a isso são noticiadas por este apresentador desde então - mas a constituição deste país e o rascunho de um bêbado (com todo respeito ao bêbado) parece não guardar grande diferença. Mesmo que o apresentador não soubesse ou não saiba destas questões – devido a um estranho lapso de memória – isso não lhe dá o direito de ser leviano.
Uma das mais perigosas artimanhas do discurso é agir de uma forma e fazer ou tentar fazer transparecer que age de outra. Nesse sentido, diria que a revolução consiste em vermos essas incongruências diárias, essas raspas de poder que estão embutidas no discurso instantâneo de cada dia.

Estejamos vigilantes.
Abraços.
Prof. Adaécio Lopes