domingo, 1 de abril de 2012

RETRATOS DE VIDA


Um dia ele chegou em casa com um cd de Nelson. Acho que tinha 20 anos ou perto disso. Seu pai disse: “que cd é esse menino? Isso não é para você escutar não, você é muito novo”. Aquele pai sabia e sabe das coisas.

Tinha sido ele que apresentara o filho à poesia quando ainda era pequeno. Quase sempre, na hora mais melancólica do dia, no cair da tarde, ele cantava aquelas coisas que para o filho soavam estranho, diferente. Nunca tinha visto ninguém cantar pessoalmente. Só no rádio e na TV. Um dia perguntou: “o que é isso pai”? O pai respondeu:

- Isso meu filho é poesia, o cantar que brota da alma do homem e o livra do sofrimento.

Ficou meio sem entender, assim como quando tinha dito que Nelson não era para ele. Mas de forma diferente. Desta última ele discordava. Como assim não é para mim, entendo tudo que ele fala, capto seu sentimento, o sentimento que exala de suas músicas. Mas hoje entende melhor e lhe dá razão. Certas coisas na vida só são entendidas por completo quando vivenciamos.

Mas naquela época o pai já prenunciava o que ia acontecer. Hoje Nelson é para o filho algo mais impactante realmente. Mas ele entende tudo, percebe que o filho tem que passar pelos mesmos percalços, descalço. Pelas mesmas provações, ele que já passou pela tempestade e agora está na velhice, a idade da calma, da temperança e da sensatez. Embora tenha receios com relação ao descendente, entende.

O filho lê os diálogos de Céfalo com Sócrates em A República de Platão, que são talvez uma das mais belas passagens sobre a velhice, a juventude e a arte de viver que se tenha produzido:

- Por Zeus que te direi, ó Sócrates, qual é o meu ponto de vista. Na verdade, muitas vezes nos juntamos num grupo de pessoas de idades semelhantes, respeitando o velho ditado [cada qual com seu igual]. Ora, nessas reuniões, a maior parte de nós lamenta-se com saudades dos prazeres da juventude, ou recordando os gozos do amor, da bebida, da comida e outros da mesma espécie, e agastam-se, como quem ficou privado de grandes bens, e vivesse bem estão, ao passo que agora não é viver. Alguns lamentam-se ainda pelos insultos que um ancião sofre dos seus parentes, e em cima disto entoam uma litania de quantos males a velhice lhe causa. A mim afigura-se-me, ó Sócrates, que eles não acusam a verdadeira culpada. Porque, se fosse ela a culpada, também eu havia de experimentar os mesmos sofrimentos devido à velhice, bem como todos quantos chegaram a esta fase da existência. Ora eu já encontrei outros anciãos que não sentem dessa maneira, entre outros o poeta Sófocles, com quem deparei quando alguém lhe perguntava: “Como passas, ó Sófocles, em questão de amor? Ainda és capaz de unires a uma mulher?” “Não digas nada meu amigo!” – replicou – “Sinto-me felicíssimo por lhe ter escapado, como quem fugiu a um amo delirante e selvagem.” Pareceu-me que ele disse bem nessa altura, e hoje não me parece menos. Pois grande paz e libertação de todos esses sentimentos é a que sobrevém na velhice. Quando as paixões cessam de nos repuxar e nos largar, acontece exatamente o que Sófocles nos disse: somos libertos de uma hoste de déspotas furiosos. Mas, quer quanto a esses sentimentos, quer quanto aos relativo aos parentes, há uma só e única causa: não a velhice, ó Sócrates, mas o caráter das pessoas. Se elas forem sensatas e bem dispostas, também a velhice é moderadamente penosa; caso contrário, ó Sócrates, quer a velhice, quer a juventude, serão pesadas a quem assim não for.

Decide escrever uma carta ao pai:

“Voltei a escutar Nelson. Agora me entenda, que te entendo. Siga seus caminhos rumo ao infinito, seguindo, mesmo sem conhecê-los, os ensinamentos de Céfalo. Eu sigo ainda a travessia da juventude, a bordo dessa nau meio sem rumo que é a vida, sofrendo os percalços do amor, tendo também como norte os ensinamentos de Céfalo. Abraços.”

No canto da folha, na qual rascunhou a carta... 

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