segunda-feira, 30 de abril de 2012

A ESTRELA







Eu caminhei na noite
Entre silêncio e frio
Só uma estrela secreta me guiava

Grandes perigos na noite me apareceram
Da minha estrela julguei que eu a julgara
Verdadeira sendo ela só reflexo
De uma cidade a néon enfeitada

A minha solidão me pareceu coroa
Sinal de perfeição em minha fronte
Mas vi quando no vento me humilhava
Que a coroa que eu levava era de um ferro
Tão pesado que toda me dobrava

Do frio das montanhas eu pensei
«Minha pureza me cerca e me rodeia»
Porém meu pensamento apodreceu
E a pureza das coisas cintilava
E eu vi que a limpidez não era eu

E a fraqueza da carne e a miragem do espírito
Em monstruosa voz se transformaram
Disse às pedras do monte que falassem
Mas elas como pedras se calaram
Sozinha me vi delirante e perdida
E uma estrela serena me espantava

E eu caminhei na noite minha sombra
De desmedidos gestos me cercava
Silêncio e medo
Nos confins desolados caminhavam
Então eu vi chegar ao meu encontro
Aqueles que uma estrela iluminava

E assim eles disseram: «Vem connosco
Se também vens seguindo aquela estrela»
Então soube que a estrela que eu seguia
Era real e não imaginada

Grandes noites redondas nos cercaram
Grandes brumas miragens nos mostraram
Grandes silêncios de ecos vagabundos
Em direcções distantes nos chamaram
E a sombra dos três homens sobre a terra
Ao lado dos meus passos caminhava
E eu espantada vi que aquela estrela
Para a cidade dos homens nos guiava

E a estrela do céu parou em cima
de uma rua sem cor e sem beleza
Onde a luz tinha a cor que tem a cinza
Longe do verde azul da natureza

Ali não vi as coisas que eu amava
Nem o brilho do sol nem o da água

Ao lado do hospital e da prisão
Entre o agiota e o templo profanado
Onde a rua é mais triste e mais sozinha
E onde tudo parece abandonado
Um lugar pela estrela foi marcado

Nesse lugar pensei: «Quanto deserto
Atravessei para encontrar aquilo
Que morava entre os homens e tão perto» 





Sophia de Mello Breyner Andresen, Livro Sexto (1962) 

quinta-feira, 19 de abril de 2012

OS RELÓGIOS DE DALI


MEMÓRIA, EIS A QUESTÃO!


MAIS O PROBLEMA É A MEMÓRIA, VELHO AMIGO! KKKK. LEMBRAMOS MESMO SEM QUERER!

O MILAGRE DA MEMÓRIA

TEXTO DE SANTO AGOSTINHO, LIVRO AS CONFISSÕES.

Vencerei então esta força de minha natureza, subindo por degraus até meu Criador.Chegarei assim diante dos campos, dos vastos palácios da memória, onde estão ostesouros de inúmeras imagens trazidas por percepções de toda espécie. Lá tambémestão armazenados todos os nossos pensamentos, quer aumentando, querdiminuindo, ou até alterando de algum modo o que nossos sentidos apanharam, etudo o que aí depositamos, se ainda não foi sepultado ou absorvido no esquecimento.Quando ali penetro, convoco todas as lembranças que quero. Algumas se apresentamde imediato, outras só após uma busca mais demorada, como se devessem serextraídas de receptáculos mais recônditos. Outras irrompem em turbilhão e, quando seprocura outra coisa, se interpõem como a dizer: “Não seremos nós que procuras?” Euas afasto com a mão do espírito da frente da memória, até que se esclareça o quequero, surgindo do esconderijo para a vista. Há imagens que acodem à mentefacilmente e em seqüência ordenada à medida que são chamadas, as primeirascedendo lugar às seguintes, e desaparecem, para se apresentarem novamentequando eu o quiser. É o que sucede quando conto alguma coisa de memória. Ali seconservam também, distintas em espécies, as sensações que aí penetraram cada qualpor sua porta: a luz, as cores, as formas dos corpos, pelos olhos; toda espécie desons, pelos ouvidos; todos os odores, pelas narinas; todos os sabores, pela boca;enfim, pelo tato de todo o corpo, o duro e o brando, o quente e o frio, o suave e oáspero, o pesado e o leve, quer extrínseco, como intrínseco ao corpo. A memóriaarmazena tudo isso em seus vastos recessos, em suas secretas e inefáveissinuosidades, para lembrá-lo e trazê-lo à luz conforme a necessidade. Todas essasimagens entram na memória por suas respectivas portas, sendo ali armazenadas.
Todavia, não são as coisas em si que entram na memória, mas as imagens dascoisas sensíveis, que ali ficam à disposição do pensamento que as evoca.
Masquem poderá explicar como se formaram tais imagens, apesar de se conhecer osentido pelo qual foram captadas e escondidas em seu íntimo? Pois, mesmo quandoestou em silêncio e no escuro, imagino, se quiser, as cores, e sei distinguir o brancodo preto, e todas as outras entre si; e isto sem que os sons, mesmo os lembrados,perturbem minhas imagens visuais, e permanecem como que a parte. Se decidochamá-los, eles se apresentam imediatamente. Mesmo quando minha línguadescansa e minha garganta se cala, canto quanto quero, sem que as imagens dascores, também presentes, se interponham ou perturbem enquanto me sirvo do tesouroque me entrou pelos ouvidos. Do mesmo modo as demais impressões, introduzidas earmazenadas em mim por meio dos outros sentidos, posso recordar a meu talante;distingo o aroma dos lírios do das violetas, sem cheirar nenhuma flor; e sem provarnem tocar em nada, mas apenas com a lembrança, posso preferir o mel ao arrobe e omacio ao áspero. Tudo isto realizo interiormente, no imenso palácio da memória. Ali eu tenho às minhas.


Postado do Facebook de Adaécio.



domingo, 15 de abril de 2012

É PRECISO ENTENDER PELA VIA DO MEIO


MAIS UM DO MESTRE

Amar: 

Fechei os olhos para não te ver
e a minha boca para não dizer...
E dos meus olhos fechados desceram lágrimas que não enxuguei,
e da minha boca fechada nasceram sussurros
e palavras mudas que te dediquei...

O amor é quando a gente mora um no outro.

Mário Quintana

POESIA DO MESTRE PARA ESSE DOMINGO QUENTE

Hoje me acordei pensando em uma pedra numa rua de Calcutá. 
Numa determinada pedra numa rua de Calcutá.
Solta. Sozinha. Quem repara nela?
Só eu, que nunca fui lá. Só eu, deste lado do mundo, te mando agora esse pensamento... 
Minha pedra de Calcutá!

Mário Quintana (Nessa foto já velhinho, esperando o momento de virar borboleta, como ele dizia):

sexta-feira, 13 de abril de 2012

FRASES DE THOREAU


"Às vezes faz bem ficar doente."

"A experiência localiza-se nos dedos e na cabeça. O coração não tem experiência."

"Podemos odiar aqueles que amamos. Os outros são-nos indiferentes."

"Cuidado com todas as actividades que requeiram roupas novas."

"Nos dias de hoje existem professores de filosofia, mas não filósofos."

"Como se fosse possível matar o tempo sem ferir a eternidade."

"Qualquer idiota pode fazer uma regra e qualquer idiota a seguirá."

"Se queres um escudo impenetrável, permanece dentro de ti mesmo."

"A maioria dos homens vive uma existência de tranquilo desespero."

"Nada é tão útil ao homem como a resolução de não ter pressa."

"Se um homem marcha com um passo diferente do dos seus companheiros, é porque ouve outro tambor."

"Benditos os que nunca lêem jornais, porque verão a Natureza e, através dela, Deus."

"Bendito entre os mortais aquele que não perde um momento da vida a recordar o que passou."

Henry David Thoreau

Estados Unidos

1817 // 1862

Escritor/Autor/Ensaísta/Poeta/Naturalista

Fonte: http://www.citador.pt/frases/citacoes/a/henry-david-thoreau/30

quinta-feira, 12 de abril de 2012

MENSAGEM EM UMA CARTA QUE ACHEI: “O AMOR É UMA DANÇA!”


Hoje encontrei uma carta na calçada, quando desci para tomar café na padaria aqui de baixo. Eis o seu conteúdo:

Aqui vos fala o nada. Após ler a carta rasgue-a, por favor.

Acordei bem disposto hoje.

Momento para reler algumas coisas no celular, ler e escutar mestres, e escrever, coisa que tinha praticamente deixado de lado por esses tempos – exceto as poesias que são minhas companheiras de todas as horas. Estou até pensando em voltar a mexer em um escrito maior que abandonei há um tempo. Nesse instante toca Raul:

Eu sei...

Ontem foi um dia surreal. Senti muitas colorações. Um dia de cinqüenta horas. Depois de muitos acontecimentos, resolvi finalmente arrumar as coisas e encontrei o livro de Alvaro de Campos, pseudônimo de Fernando Pessoa. Um achado entre os escombros:

 Os antigos invocavam as Musas.

Nós invocamo-nos a nós mesmos

[...]

Excepto como luminosidade vejo

Lá no fundo...

No silêncio e na luz falsa do fundo...

Que Musa!...

Ai li alguns poemas deste que para mim não é um poeta, mas um bruxo, um alquimista da palavra, um portal – ele e Raul juntos, vejam só! E eu que tinha sentido as pancadas melancólicas, depressivas e sombrias trazidas com o mergulhado de uma semana em um mar de álcool, senti aquela vontade de pular, dançar e gritar, algo que nos últimos tempos tinha abandonado, andava meio capiongo. Lembrei de um dia em que entrei em transe, em uma das casas em que morei e rabisquei nas paredes – será que ainda estão lá aqueles rabiscos? – aquela frase de outro grande mago do século XIX:

“Só acreditaria num Deus que soubesse dançar!”

Aqui ainda não risquei nenhuma parede! Mas algo me toca como a dizer que já vivi nesse espaço, sei lá, a sua geografia, sua posição no cosmos me é natural, especial, me sinto bem aqui, principalmente quando estou só. Pareço estar numa câmara de um mundo distante, fico contemplando a melancolia da tarde, vendo os carros passar, as pessoas contando seus conflitos, suas experiências, os viciados passando para o bar, o sinal a abrir e fechar.   

Eu que há dois dias tinha decidido ficar preso a essa caverna, nesse quarto estranho, decidi aceitar o convite de um amigo e ir ao Sesc Seridó ver um espetáculo de um grupo de dança de Minas Gerais – não lembro o nome do grupo, datas e nomes definitivamente não são o meu forte. O espetáculo: A escapada. Sabia dessa apresentação, mas tinha decidido não mais ir ver. Pensei, agora, que não poderia deixar de ir, pois talvez a dança, na sua mutabilidade – logo eu que nunca fui afeito a danças – me tinha algo a dizer.

E esse pressentimento se confirmou. O espetáculo foi belíssimo. Uma grande metáfora sobre a condição humana, nossa tentativa de escapar, de fugir, mas que na verdade não é algo tão simples e/ou fácil, pois no final das contas estamos quase sempre fugindo é de nós mesmos. No bate-papo que sucedeu a apresentação, o diretor do grupo falou que a ideia inicial do espetáculo surgiu da questão dos retirantes do Nordeste e em geral, mas que depois ganhou contornos mais plurais em termos de significado.

A arte realmente nos liberta do tempo, esse lacaio que quer nos destruir a qualquer custo, com lembranças do passado e projetos de futuro. Ela para o relógio para que a gente possa se ver.

A peça oscila entre momentos de alegria e melancolia, liberdade e conflito, amor e violência. As malas que os personagens carregavam estão sempre chamando a atenção para a questão da indecisão de quem está sempre de malas prontas e fica indeciso sobre a partida. Os dançantes também subiam e desciam uma rampa com freqüência, dando essa ideia de indecisão e tentativa de escapada meio frustrada.

Mas os momentos mais belos do espetáculo foram aqueles em que os artistas nos fizeram ver que o amor é uma dança, não é algo fixo, parado, que está ali e dali não sai, mas algo fluido, cheio de altos e baixos, que se dilata no tempo, que tem intervalos, que comporta um certo sofrimento, certa melancolia, algo ligado à autodescoberta de cada ser humano e do significado da vida, já que sem o sofrer o viver parece não ser tão magnífico, pois a vida é um duplo: alegria/tristeza, dor/alívio, proximidade/distância...

O amor é uma dança!  

Que venham outros dias de cinqüenta horas. Que eu galope à velocidade da luz.

Acabou a carta.

E eu decidi não a rasgá-la.

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Ler Fernando Pessoa é algo libertador sempre


Ler Fernando Pessoa é libertador. Um dos mais belos deste visionário, pelo pseudônimo de Alvaro de Campos:

TABACARIA


Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.
Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.
Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.
Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei de pensar?
Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Gênio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chava, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.
(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)
Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, em rol, pra o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.
(Tu que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei quê moderno - não concebo bem o quê -
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)
Vivi, estudei, amei e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente
Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.
Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-me como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.
Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com o deconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,
Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.
Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.
Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.
Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.
(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.


Álvaro de Campos, 15-1-1928

domingo, 1 de abril de 2012

RETRATOS DE VIDA


Um dia ele chegou em casa com um cd de Nelson. Acho que tinha 20 anos ou perto disso. Seu pai disse: “que cd é esse menino? Isso não é para você escutar não, você é muito novo”. Aquele pai sabia e sabe das coisas.

Tinha sido ele que apresentara o filho à poesia quando ainda era pequeno. Quase sempre, na hora mais melancólica do dia, no cair da tarde, ele cantava aquelas coisas que para o filho soavam estranho, diferente. Nunca tinha visto ninguém cantar pessoalmente. Só no rádio e na TV. Um dia perguntou: “o que é isso pai”? O pai respondeu:

- Isso meu filho é poesia, o cantar que brota da alma do homem e o livra do sofrimento.

Ficou meio sem entender, assim como quando tinha dito que Nelson não era para ele. Mas de forma diferente. Desta última ele discordava. Como assim não é para mim, entendo tudo que ele fala, capto seu sentimento, o sentimento que exala de suas músicas. Mas hoje entende melhor e lhe dá razão. Certas coisas na vida só são entendidas por completo quando vivenciamos.

Mas naquela época o pai já prenunciava o que ia acontecer. Hoje Nelson é para o filho algo mais impactante realmente. Mas ele entende tudo, percebe que o filho tem que passar pelos mesmos percalços, descalço. Pelas mesmas provações, ele que já passou pela tempestade e agora está na velhice, a idade da calma, da temperança e da sensatez. Embora tenha receios com relação ao descendente, entende.

O filho lê os diálogos de Céfalo com Sócrates em A República de Platão, que são talvez uma das mais belas passagens sobre a velhice, a juventude e a arte de viver que se tenha produzido:

- Por Zeus que te direi, ó Sócrates, qual é o meu ponto de vista. Na verdade, muitas vezes nos juntamos num grupo de pessoas de idades semelhantes, respeitando o velho ditado [cada qual com seu igual]. Ora, nessas reuniões, a maior parte de nós lamenta-se com saudades dos prazeres da juventude, ou recordando os gozos do amor, da bebida, da comida e outros da mesma espécie, e agastam-se, como quem ficou privado de grandes bens, e vivesse bem estão, ao passo que agora não é viver. Alguns lamentam-se ainda pelos insultos que um ancião sofre dos seus parentes, e em cima disto entoam uma litania de quantos males a velhice lhe causa. A mim afigura-se-me, ó Sócrates, que eles não acusam a verdadeira culpada. Porque, se fosse ela a culpada, também eu havia de experimentar os mesmos sofrimentos devido à velhice, bem como todos quantos chegaram a esta fase da existência. Ora eu já encontrei outros anciãos que não sentem dessa maneira, entre outros o poeta Sófocles, com quem deparei quando alguém lhe perguntava: “Como passas, ó Sófocles, em questão de amor? Ainda és capaz de unires a uma mulher?” “Não digas nada meu amigo!” – replicou – “Sinto-me felicíssimo por lhe ter escapado, como quem fugiu a um amo delirante e selvagem.” Pareceu-me que ele disse bem nessa altura, e hoje não me parece menos. Pois grande paz e libertação de todos esses sentimentos é a que sobrevém na velhice. Quando as paixões cessam de nos repuxar e nos largar, acontece exatamente o que Sófocles nos disse: somos libertos de uma hoste de déspotas furiosos. Mas, quer quanto a esses sentimentos, quer quanto aos relativo aos parentes, há uma só e única causa: não a velhice, ó Sócrates, mas o caráter das pessoas. Se elas forem sensatas e bem dispostas, também a velhice é moderadamente penosa; caso contrário, ó Sócrates, quer a velhice, quer a juventude, serão pesadas a quem assim não for.

Decide escrever uma carta ao pai:

“Voltei a escutar Nelson. Agora me entenda, que te entendo. Siga seus caminhos rumo ao infinito, seguindo, mesmo sem conhecê-los, os ensinamentos de Céfalo. Eu sigo ainda a travessia da juventude, a bordo dessa nau meio sem rumo que é a vida, sofrendo os percalços do amor, tendo também como norte os ensinamentos de Céfalo. Abraços.”

No canto da folha, na qual rascunhou a carta...