domingo, 9 de dezembro de 2012

ESCREVER O QUÊ?







Nunca mais tinha escrito um texto... talvez estivera demasiado ocupado para escrever algo maior – também porque quase sempre tenho estado de acordo como Walt Whitman quando ele dizia que quase nada de substancial pode ser dito fora da poesia -, ou talvez essa tenha sido a desculpa que dei para não escrever textos. A verdade, talvez, é que não tinha mais saco para escrever. Talvez um certo desânimo autosabotante, concordante com o que dizia Nietzsche: o melhor escritor é aquele que nenhum livro escreve!

Mas o fato é que aqui estou eu a escrever algumas coisas mais uma vez... Do seio de minha casa bagunçada, de meus escritos perdidos e amassados, da minha confusão caótico-mental, decido escrever nem sei por qual motivo... Afinal como disse um dia Michel Foucault, dizer que sou anarquista é demasiado simplório e restritivo! Ferido mortalmente pelo vazio, pelos resquícios etéreos e eternos da dor, vago como um cantador cujo maior deleite é o pavor de se ver sem ninho, nem calor. Mas vou!!

Tudo me é demasiado pouco. Nos diálogos acadêmicos com o filósofo dos seiscentos (dou a permissão para que construam o trocadilho afinal eu também já o fiz e sei que ele o permitiria pelo sarcasmo que brota de seus escritos) me sinto liberto com suas brincadeiras com o infinito, embora quando vou formatar as coisas para o arcabouço de tese que construo, tendo vistas ao processo de doutoramento, a coisa por vezes volte à estaca zero.

Tive uma injeção de ânimo ao ver os vídeos de Eduardo Marinho (http://observareabsorver.blogspot.com.br/2012/12/aviso-aos-amigos-do-sul-mixou-viagem.html#comment-form) no Youtube... Muito bons!! Para mim isso tudo que discute é tão natural, mas volto a me sentir vivo, me sinto muito bem quando vejo alguém colocar essas questões com tanta segurança, e com uma certa agressividade poética. Sim porque a poesia meus caros, é a única coisa que nos livra da morte... Ela é eterna... No início era o verbo! Só a poesia e o amor...

Nem sei por que ainda tenho medo,
sendo em tudo amor!
Não é mesmo flor?



FILÓSOFO DA RUA - EDUARDO MARINHO




sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Uma genealogia aos 02 de Novembro




Dia de Finados... 

Dia para a gente pensar nos outros ramos da nossa linhagem (uns que sem ser de sangue, são de coração), todos que se foram e se fazem representados nas linhas que se escreve, nas gargalhadas que se dá e até nos silêncios que se faz...
Sou um pouco de todos eles: o silêncio, agonia e graça de Sebastião de Lídia (Avô materno), as gargalhadas, a força e a inteligência de Francisca Maria da Conceição (Avó materna), a inteligência, visão e carinho de Joaquim Lopes (não o conheci - Avô paterno), a serenidade e companheirismo de Francisca Fernandes Barros (praticamente não a conheci - Avó paterna), a vida desregrada e o apego à solidão de Raimundo Fernandes Barros (tio paterno), os medos e as boas ações de Antônio Lopes (tio paterno), a inocência e a bondade de Inácio Dias Maia (primo), a pureza e a bondade dos Damiões (primos) as manias de José de Lídia e Raimundo de Lídia (tios maternos de segundo graus), os vícios e qualidades de Adauto Lopes (tio paterno), a transcendência de Albaniza (tia paterna), a pureza, a bondade e a fé de Dona Raimunda (Avó), o cuidado, o afeto e as brincadeiras de Dona Chiquinha (Avó), a pureza e o carinho de Expedito Rocha (tio), a poesia de João de Lídia (tio materno de segundo grau)...

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

MOMENTOS ETERNOS PARA NÃO ESQUECER: PEDAÇOS DE TEMPOS DE NUNCA VIVER!






Para alguns a experiência do sofrer é a própria coisa em si. Para estes não resolve pensar positivo, nem correr atrás de algo ou se desesperar... Resta apenas ver os outros humanos em ação... Porque a sua chaga é como um arranhão no disco rígido, não tem solução... Ele é o negativo do mundo, parece ter se acostumado com as bicadas do abutre. E sofre, sofre sem saber por que, o sofrimento para ele é um imperativo, dorme e acorda com aquele cansaço da dor, sem sabor, sem cor, sem amor... É um alguém perdido na carruagem do tempo, assustado como quem escapa da morte, perdido como um cão sem norte, apostando suas fichas na sorte...

Insiste em estar no passado, mas a verdade é que não tem, nem nunca tivera futuro. Mete os pés pelas mãos e atropela o instante, não tendo paciência consigo não a tem também com relação a nada! Um tal ser sombrio, melancólico e triste pensa com frequência, então, sobre os motivos que o fariam continuar nesse circo em que para ele todos os palhaços morreram...

Nesse momento ele pensa: “a minha esperança é que em alguma praça perdida do mundo eu encontre alguém que me ache e diga: ‘Ei, era você que eu estava procurando desde sempre!’” Mas isso é mais um pensamento da sua cabeça torta, mais uma viagem do transeunte perdido nos arquétipos malvados da tribo. Porque naquela praça, quando encontrar a tal pessoa, ele criará mais uma das suas artimanhas muito bem arquitetadas para ficar mais uma vez só. Só como um diabo triste! Triste como quem foge sem saber muito de que...

Mas o pior de tudo não é isso. O pior é não conseguir entender porque determinada grata persona consegue ainda cativar a atenção deste pêndulo de oscilação confusa... Será mais uma de suas tentativas de fuga? Já que também naquela empreitada fracassastes? Fica agora olhando para o espelho, espelho que tanto te acompanha, desde os tempos da morada coletiva...

Como um inocente arrependido, ou um culpado indeciso, espera o momento em que tudo se acabe, embora tenha a forte convicção de que esse momento não virá... Sabota a escada quebrando cada degrau... É sempre o mesmo suicídio fatal, instante eterno, cena banal, olha com desprezo, sentindo o bem e o mal...

Levanta-se e rasga tudo que escreveu, e olha de novo a foto que desapareceu...


“Eu tenho um amor que só me vem em sonho
Quando abro os olhos ele desaparece
Eu tenho um amor que não me deixa dormir
Quando eu durmo ele dança...”


Nada a fazer, Lira

sábado, 11 de agosto de 2012

A PROPÓSITO DO DIA DO ESTUDANTE...


                                             Saudações a todos os estudantes do mundo!

Como professor, farei uma breve exposição acerca de algumas questões relacionadas aos estudantes, seus mestres e a relação entre eles.

Os relatos são sempre os mesmos. É dito de forma repetitiva que os estudantes hoje em dia estão cada vez mais desinteressados com os estudos, que eles “não querem nada!” Eu acho que o problema é justamente o contrário! Os estudantes vivem e querem muitas coisas, e, portanto, não vão se interessar por coisas que não tem a ver com seu universo.

Um estudante adolescente hoje já viveu, e vive, muito mais situações, experimentações, do que um estudante de mesma idade há 20 anos. Isso não pode deixar de ser considerado! O fato é que os estudantes estão na crista da onda de uma época em que as pessoas estão cada vez mais entendendo que as questões essências foram abandonadas e que isso trouxe todo tipo de mazela para o viver dos humanos – uso de substâncias para tentar parar uma mente perturbada, aumento do número de suicídios e de doenças de ordem existencial-emocional.

Logo, o que devemos fazer é socializar nossas questões com os estudantes, pois no final, em menor escala talvez, mas, as questões que ocupam a mente dos mais jovens são muito semelhantes às nossas - é necessário que entendamos isso. É preciso buscar nos conteúdos da escola pontos geradores de interesse, para que os estudantes possam colar isso na sua viagem pessoal. Para isso o professor também tem que ir em busca daquilo que realmente lhe interessa nos conteúdos trabalhados, porque como fala um grande psicólogo brasileiro, “sem tesão não há solução!

Duvido – e digo isso baseado em evidencias e práticas que fiz e faço (e é justamente quando vejo os seus olhos brilharem) – que um estudante, justamente um dos que os professores dizem não querer nada, não se interesse por algum aspecto das Leis de Newton se ele souber que o que buscava esse pensador era entender questões como o fim do mundo e a morte. Que ele tinha a bíblia como um livro de sabedoria e que lia especialmente os livros do profeta Daniel, o Apocalipse e o Eclesiastes. Ou, que as grandes motivações de Descartes eram vencer o gênio maligno e controlar as paixões da alma.

Então, a questão não é que o estudante só gosta da saga crepúsculo, ao contrário. Ele gosta do que está em crepúsculo porque ele gosta do simbólico, daquilo que pulsa no seu inconsciente, que também está em muitos outros lugares do conhecimento construído pela humanidade, acontece que nem mesmo os professores têm, em sua maioria, conhecimento disso. No final das contas os interesses são os mesmos desde sempre, nós, modernos, é que nos tornamos seres meio idiotas -na concepção grega antiga idiota é simplesmente aquele que não conhece -, vazios, materialistas, e, portanto, medrosos, padronizados, prisioneiros de nós mesmos!

E para aquele que se levanta e questiona sobre o vestibular, o emprego, o mercado de trabalho, eu tenho alguns entendimentos sobre isso: 1) estudantes com esse perfil jamais serão moldados na escola do treinamento, logo a metodologia tem que ser outra; 2) infelizmente é essa mentalidade que tem destruído a liberdade, e a centelha de vida que existe em cada um de nós, inclusive na maioria dos professores; 3) aqueles que se destacaram como mestres ou gênios da história da humanidade nunca se adaptaram a padrões, infelizmente a humanidade é hipócrita, compra um quadro ou um livro de tais “artistas” por fortunas e nega a cada instante que um novo se desenvolva (foi inclusive isso que matou Vincent van Gogh, segundo Artaud um suicidado pela sociedade); 4) quando se possibilita o voo de um estudante ele vai galgar muitos degraus, o vestibular e a questão profissional passa a ser apenas um detalhe, um apêndice importante de sua vida.

E ainda para aqueles que dizem que a teoria de nada serve, que o que importa é a prática, lembro que o verbo é a realidade, que a palavra e o símbolo detêm o poder de construir o mundo. Se disserem que os que teorizam e pensam acerca das coisas estão apenas no mundo da teoria, eu digo que quem pensa encontrar a resposta como algo externo é que está em processo de fuga! Isso porque a realidade não existe como algo separado! Quem pensa que os acontecimentos externos trarão o tão sonhado conforto para nossas almas é alguém que não vive o sonho, não enfrenta o inconsciente (como permanentemente colocava Jung), não busca encontrar a saída da Matrix, pois para isto é preciso sonhar acordado.

“Como caístes tu, do Céu, brilhante Estrela, que eras tão 
esplêndida na tua origem!”
                                                                  (Is: 14; 12)

quinta-feira, 19 de julho de 2012

A ILUSÓRIA MÁCULA DO ERRO


As nossas limitações são sem dúvida aquilo que nos separa dos deuses, mas nós como metidos que somos teimamos em tentar roubar o fogo sagrado e sermos divindades. Ledo engano velho macaco tortuoso. Essa tentativa é justamente aquilo que nos faz ser tão infelizes. Se entendêssemos que isso jamais será possível, e nos resignássemos à nossa dose de sofrimento diária, não seríamos infelizes, justamente porque não teríamos a expectativa de nos libertarmos e viveríamos o instante tal qual nos se apresenta. Mas não! Temos que ficarmos procurando infinitamente pelos em casca de ovo, andando em círculos planos, como se isso fosse nos ascender à verticalidade dos céus.

Porque o segredo da coisa é justamente o fato de que os erros não existem. Justamente porque não há o passado, apenas o presente. O passado é a escuridão, a caverna, a mente, o blá blá blá, como me dizia um grande amigo em tempos importantes de minha travessia. O presente é a luz, o divino, o esplendor, o salto, é quando estamos fora do tempo, porque é a verdade.

Como muitas expressões, palavras e conhecimentos antigos, a palavra erro vem da relação do homem com o céu. Os astros errantes ou planetas seriam aqueles que não seguiam os demais corpos celestes, no caso as estrelas, que formam as constelações do Zodíaco e as demais - muito estudadas por aqueles tempos, sendo a Astrologia uma das ciências maiores. Portanto, errar, errante, significa ser diferente, mudar. O que nos traz como tentação o número 2, a dualidade: passado/presente, bem/mau, certo/errado, vida/morte. Mas o que é mais irônico nisso tudo, é que embora esses corpos celestes efetuem movimentos diferenciados, eles também voltam sempre á posição de onde saíram, ou seja, também completam um ciclo, assim como a esfera das estrelas, embora pareçam seguir o som de um outro tambor, para parafrasear Thoreau.

Mas, a religião cristã usa a mácula do erro como forma de subjugar e imprimir um sofrimento externo ao ser humano. É como se lhe fosse dito: você deveria ser um Deus, mas você não o é por culpa sua – que é justamente a idéia de Queda, tão cara ao pensamento judaico-cristão. Isso é obra da corrente mais conservadora da Igreja Medieval, já que existia também a corrente da teologia negativa – justamente porque negava a possibilidade de nos irmanarmos totalmente com Deus.

Mas vale lembrar que na essência do pensamento e da figura do Cristo, está clara a mensagem de que sempre poderemos nos libertar do nosso vale de lágrima, através da ressurreição dos mortos. Afinal o Cristo não quis doutrinar a humanidade, mas libertá-la através do amor, que é o entendimento supremo e o eterno bem. Quando diz “eu vim para que todos tenham vida e a tenham em abundância” ou “pegue sua cruz e me siga”, Jesus não estava recrutando um exército de adoradores, mas chamando aqueles que quisessem se libertar do jugo da mente, andar sobre as turbulências representadas pelas suas águas. Afinal foi o mesmo Cristo quem disse: “não vim trazer-lhe a paz, mas a espada”.

Essa é uma concepção muito semelhante àquela presente nas diversas tradições orientais. Afinal naquele tempo tudo estava ligado. Uma concepção muito cara à tradição do oriente é a idéia de Karma, que para muitos é apenas a nossa pedra no sapato, aquilo do qual não podemos nos livrar, nossa sina! Mas na verdade o Karma é justamente aquele entrave a ser vencido por cada um de nós. Para lembrar de Patativa do Assaré, é aquele espinho que sentimos nos cutucar durante toda a nossa existência. Logo o Karma não é apenas algo negativo, mas a possibilidade de algo extremamente positivo, que é a nossa libertação e aprimoramento. Portanto, ligando com a mensagem do Cristo, ele não veio para morrer por nós, mas para mostrar que todos devemos morrer, simbolicamente, vencermos a pedra que nos impede de caminhar por pastos verdejantes.

E a idéia de Karma também tem a ver com essa coisa do passado, de coisas que não foram resolvidas e que reverberam no presente. Então, vencer o nosso Karma é também vencer o nosso passado, o nosso medo, não deixando que o passado salte para o presente como uma alma penada. Na verdade é destruir a ideia de que existe passado e presente. E a linha divisória entre passado e presente é a idéia de erro. Porque erro remete a desequilíbrio, ao que foi e não será ou não deixará de ser (agindo como um vulto), ou ao que será de novo (como um fantasma a nos aterrorizar). Mas, o que há é um contínuo, do qual o que importa é o presente. O passado é apenas um nível de realidade do qual não nos desapegamos para vivermos o que realmente importa. É o Karma que não vencemos e que se não vencermos voltará, pois é cíclico, e do qual não fugiremos jamais.

E retomando, como diria outro grande amigo, como uma forma de conduzir aquele bando de caranguejos que seguiam ouvindo a música dos trovões: a única coisa que importa é o verdadeiro amor!


quinta-feira, 12 de julho de 2012

MATERIALIZAÇÃO E MERCANTILIZAÇÃO DO MUNDO NATURAL: ESTRATÉGIA POLÍTICA PARA O CERCEAMENTO DAS LIBERDADES POÉTICO-EXISTENCIAIS DO HUMANO



A Álvaro Lopes da Silva (meu pai)




Essa é a imagem! É isso que o poder chama de desenvolvimento sustentável! Desde já deixo claro que não vou me posicionar sobre o fato de se existe ou não Aquecimento Global, não tenho espaço nem quero, agora, partilhar dessa questão. O que eu sei é que gosto de verde e gostaria que os filhos e netos de meus amigos também tivessem a oportunidade, como eu tive, de viver no verde, entre o mato, sentindo as folhas, as flores e o cheiro da relva e não de esgoto!

A verdade é que a política vigente não está nem um pouco interessada nessa questão maior. A propósito, vejo agora que o Senador Demóstenes Torres foi cassado. Que bom! Mas fico pensando em quantos Demóstenes existem naquele Senado, na Câmara de Deputados, nas Assembléias Legislativas, Prefeituras e Câmaras de Vereadores espalhadas por esse Brasil! A lógica é a seguinte: sacrifica-se um para manter o esquema! Exemplo perfeito da sociedade do simulacro em que vivemos.

Talvez o pior de tudo seja que, nesse sistema que tem como deus o Capital, a restrição e a escassez é justamente o mecanismo propulsor da engrenagem. Eis a oportunidade de comercializar, gerar lucro, exclusão e aprofundar a desigualdade entre os humanos. Isso porque o capitalismo, vale lembrar, é baseado na linearidade, é um sistema fechado, só existe pela miséria, usofruto de poucos e negação de direitos a muitos.

É impressionante que quando pensadores do século XIX, como Pierre-Joseph Proudhon (1809 - 1865) disseram isso, Karl Marx os chamou de utópicos, usando de meios escusos, como a difamação e outras práticas condenáveis para destruí-los moral e intelectualmente (isso não é uma suposição, o amigo Vantie Clínio defendeu tese de doutorado recentemente tratando da relação de Marx com Stirner, Feuerbach, Bakunin, Proudhon e etc., por exemplo). O socialismo não deu certo por ser justamente o capitalismo de ponta a cabeça. É montado sobre o mesmo esqueleto. E Marx ainda pousa como o maior oposicionista do Capitalismo, quando na verdade criou as condições para que continuasse, ao marcar as fronteiras da crítica.

As análises econômicas de Marx são relevantes – diga-se de passagem, muita coisa foi copiada de economistas que o antecederam, como David Ricardo, por exemplo – mas a sua alternativa política ao capitalismo foi um tiro no pé. Parafraseando Nietzsche (quando tratava de outro pensador): saiu e entrou de volta para ratoeira!

Talvez muitos digam, mas o que há fora do capitalismo de tão bom assim, pois o Comunismo, ou Socialismo, nós vimos no que deu. Aquilo que conhecemos e aprendemos na escola, como sendo o Feudalismo, também era algo fechado, sombrio, sem mobilidade social, baseado na servidão. E ai?

Essa é uma questão interessante. Tenho lido muita coisa por estes tempos, que direta ou indiretamente tem relação com essa questão, inclusive alguns escritos mais poéticos de Foucault (em As palavras e as coisas) e a defesa que Nietsche faz da Aristocracia (em Para além do bem e do mal). E, embora não tenha uma tese formada, nem queira me aprofundar nisso agora, entendo que aqueles tempos que a modernidade alcunhou de “antigos” possui muito mais significados do que pensa nossa vã economia (sim, porque a filosofia anda devagar por estes nossos tempos...).

Pelo simples fato de que os sonhos, os devaneios, o simbólico, não podem ser comercializados, transformados em concreto (os antigos gregos sabiam disso, afinal os átomos formavam tudo, para Epicuro, Leucipo e Demócrito, inclusive as almas – com modernidade a coisa mudou: não é que os átomos formam tudo, mas a matéria é formada de átomos. Percebem a absurda diferença de enfoque?), entendo que a monetarização e materialização do mundo que se seguiu ao domínio monopolizante, institucional e político, dos segredos da existência, feito pela Igreja, nos fez ver o estágio pré-mercantilista e pré-industrial, como o nada! Fazer a volta é necessário, e está acontecendo, principalmente, na mente daqueles que se decidem por tentar despertar na Matrix.

Lembro das lendas celtas como aquelas retratadas em Senhor dos Anéis. Naquela cultura o respeito para com as plantas é notório, afinal entendem que elas são a base de tudo! Uma prova disso é que entre os Arcanos Maiores do Tarô Celta figura o Carvalho (a Árvore Sagrada) – sendo o Tarô, como dizia o filósofo Giordano Bruno (1548 - 1600), uma forma de construir conhecimento, e não apenas uma crendice ou superstição. Não me canso de lembrar-me do que disse um dia o filósofo Wittgenstein: sobre o que não sabemos devemos nos calar!

Continuo concordando com Milton Santos quando ele diz que as revoluções – se é que ainda se pode falar nestes termos - virão de baixo, das microcomunidades ou tribos (para colocar o sociólogo Michel Maffesoli na conversa). No tocante às questões ambientais, virá com aqueles que de uma forma ou de outra gostam do verde, seja por ter vivido já a experiência de se embrenhar pelo mato escutando a cigarra, a passarada e a canção do mundo, ou se emocionado com os relatos feitos por Henry David Thoreau (1817 – 1862) sobre a vida nos bosques, ou por qualquer outra motivação.

Nesse sentido, estou falando de algo diferente do que se convencionou chamar de Nova Esquerda, ligada às questões ecológicas e ambientais, que segundo Caputo, teria sido alimentada pela filosofia do Heidegger “tardio” - que tentou uma retomada do poético e pensou a questão da técnica. Acho tudo isso muito positivo. Mas o meu chamado é existencial, para além do político! Meu manifesto é um grito para que voltemos à cabana, assim como fazia Brouwer nos seus momentos mais sombrios. Que agarremos nossa viola e peguemos a trilha seguindo o chamado...

“Corre lobo pra dentro da mata, tua paz é teu suor...” (Lira).


terça-feira, 10 de julho de 2012

Versos Íntimos - Augusto dos Anjos

Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão - esta pantera -
Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!

terça-feira, 3 de julho de 2012

Me perguntam por que Quintana é um mestre?

Eu amo o mundo! Eu detesto o mundo! Eu creio em Deus! Deus é um absurdo! Eu vou me matar! Eu quero viver!

- Você é louco? 

- Não, sou poeta.



Mario Quintana

quarta-feira, 27 de junho de 2012

DAS QUESTÕES AOS MALABARES


Não abandone suas questões. Um dia chegará a uma conclusão, por mais que demore dias, anos, ou até mais de uma década.

É bastante conhecida a citação de Isaac Newton (1643 - 1727) em resposta ao questionamento de alguém sobre como tinha feito para chegar a suas diversas teorias: “pensando sempre nelas!”. Pois é esse é o ponto, não conseguimos resolver nossas questões por outro meio. Albert Einstein (1879 - 1955) – que quase sempre é tido como aquele que destruiu a teoria newtoniana, mas que, como demonstro para os alunos, mantém muitas semelhanças com aquele inglês nas suas colocações, já que suas teorias também são uma mescla de simbologia, matemática e busca pessoal – dizia que o instante do entendimento é o momento em que a luz acende, é quando passamos a ver a realidade, uma situação ou um fenômeno de forma absurdamente diferente daquilo que tínhamos considerado até então.

Esse processo me faz lembrar a metodologia psicanalítica desenvolvida por Sigmund Freud (1856 - 1939) e muitos outros colaboradores. Em linhas gerais, a análise, como é mais coloquialmente tratada, é uma técnica em que o indivíduo é levado a se confrontar com sua questão por um processo narrativo exaustivo, até que num belo dia, ou talvez em um dia não tão belo assim, ele percebe onde está o furo do discurso, ou melhor, onde está o alicerce da parte podre que insistentemente o fazia andar em círculos sem nada resolver, sem que nenhuma decisão realmente determinante fosse tomada.

Quando entendemos é quando abandonamos as intermitências da morte em que nos encontramos e saltamos para um outro universo, colorido de vida. E por que falar de morte nesse caso, diria o interlocutor? Porque entender pressupõe mudar, deixar para traz um mundo e se aventurar por outro, que tem outros contornos e outras configurações. E esse inevitavelmente é um processo de morte! Mas quase sempre, quando o indivíduo entende, não tem nenhuma dúvida do caminho a tomar, justamente porque fica maravilhado, transfigurado pela nova descoberta. Tal descoberta é ele, parido de novo. É uma nova chance, é como se passasse de fase em um game.

A mudança nos coloca no contexto de morte e vida! Não por acaso – já que nada realmente é por acaso, “Deus não joga dados”, para mais uma vez citar Einstein – estou agora escutando o disco Transfiguração da banda já extinta Cordel do Fogo Encantado, que tinha à frente José Paes de Lira (1976 - ?), mais conhecido como Lirinha, ou Lira, nome que passou a adotar recentemente quando do lançamento do seu primeiro álbum solo homônimo.

Lira parte do universo sertanejo, da poesia de Patativa e de João Cabral e desemboca na arte de Stanley Kubric (1928 - 1999) - uma de suas muitas influências, a qual se pode juntar Friedrich Nietzsche, Ítalo Calvino etc.. A oscilação vida/morte é notoriamente a temática central dos últimos trabalhos deste pernambucano. Assim como João Cabral (1920 - 1999), Nietzsche (1844 - 1900) e Kubric, Lira passa a conceber pela via da vivência – talvez a única via realmente eficiente e eficaz – que vida e morte estão em um bate-bola infinito, como Raul Seixas também já tinha nos indicado, bebendo nas mesmas fontes e/ou semelhantes.

Mas, em minha opinião, a questão central está justamente um passo adiante. Para sairmos desse universo angustiante da constatação cíclica da existência, temos que entender esse mecanismo e saltar para fora dele, só assim conseguiremos vislumbrar as novas brumas de outros tempos e mundos. Quando morremos, não deixamos de carregar nosso mais recente fantasma, mas podemos justamente passar a entender que é apenas um fantasma, como muitos outros que nos cercam, vencidos em outras batalhas, mas que talvez por serem advindos da “infância” nem os percebemos mais como fantasmas, mas apenas como becos tomados, por onde as crianças não podem transitar... Se não os consideramos assim é porque ainda não são fantasmas, a batalha ainda precisa acontecer! Mas o pior de todos são os fantasmas com os quais temos de estarmos sempre em batalha, esses também fazem parte de nossa psique e quando chegamos a tal conclusão é justamente quando entendemos. Notoriamente, fantasmas, nesse contexto, não são espectros de pessoas, mas redes psíquicas, mapas com os quais nos acostumamos a navegar, obviamente, sempre pelos mesmos mares.

... o ofício do vigilante, do equilibrista,  a arte da espreita, do malabarista...

segunda-feira, 25 de junho de 2012

Pensamentos e imagens...

Tem instantes nos quais entendemos, calamos e entramos... Isso é divino, eterno, luminoso!







"A paz vale ainda mais que a verdade!"

Voltaire






"Da árvore do silencio pende o fruto da paz."

Provérbio Árabe




sexta-feira, 15 de junho de 2012

ISSO É PABLO NERUDA!






Já não se encantarão os meus olhos nos teus olhos, 
já não se adoçará junto a ti a minha dor.

Mas para onde vá levarei o teu olhar 
e para onde caminhes levarás a minha dor.

Fui teu, foste minha. O que mais? Juntos fizemos 
uma curva na rota por onde o amor passou.

Fui teu, foste minha. Tu serás daquele que te ame, 
daquele que corte na tua chácara o que semeei eu.

Vou-me embora. Estou triste: mas sempre estou triste. 
Venho dos teus braços. Não sei para onde vou.

...Do teu coração me diz adeus uma criança. 
E eu lhe digo adeus.

quarta-feira, 6 de junho de 2012

Marketing

O marketing é uma brincadeira sem graça feita por aqueles que acham que somos desse mundo!



quinta-feira, 31 de maio de 2012

Tradução de Politik Kills (A política mata) de MANU CHAO


Politik Kills

Politik kills(x9)
Politik needs votes
Politik needs your mind
Politik needs human beings
Politik need LIES

That's why my friend it's an evidence:
Politik is violence(x2)

Politik Kills(x6)

Politik use drugs
Politik use bombs
Politik need torpedoes
Politik needs blood

That's why my friend it's an evidence:
Politik is violence(x2)

Politik need force
Politik need cries
Politik need ignorance
Politik need lies

Politik Kills

A política mata

A política mata
A política precisa de votos
A política precisa da sua mente
A política precisa de seres humanos
A política precisa de mentiras

Isso tudo por que é uma prova, meu amigo:
A política é violência

A política mata

A política usa drogas
A política usa bombas
A política precisa de minas
A política precisa de sangue

Isso tudo por que é uma prova, meu amigo:
A política é violência

A política precisa de força
A política precisa de gritos
A política precisa de ignorância
A política precisa de mentiras

A política mata

domingo, 20 de maio de 2012

A POLÍTICA É ALGO LIMITADO!


Almoço em um restaurante popular. Gosto daquele lugar. Ali comem mendigos, vendedores, funcionários, bancários, advogados, professores, estudantes, moto-táxis, prostitutas, viciados, alcoólatras, loucos e marginais de todo tipo. No fundo, lá todo mundo é igual. Todo mundo portando seus Cinqüenta Centavos de Real esperando o alimento. Se essa palavra já não fosse tão gasta diria que aqui existe democracia.
Ali não há políticos. A vida acontece normalmente. Não precisamos ficar representando muito naquele universo. Precisamos sim nos alimentar. A vida passa numa certa objetividade. Outro dia um louco me falou (porque só os loucos e as crianças são verdadeiros): “se alguém me olhar com desprezo eu digo: ei você não é grande rico não, se fosse não estaria aqui.”
Fico pensando, às vezes, como a política é incapaz de se comunicar com este mundo. Na sua missão de sempre fazer o melhor acaba fantasiando a vida e não dando atenção àquilo que a vida tem de mais importante que a própria vida, as angustias humanas, os personagens da vida, o paradeiro do tédio e da melancolia, as dores de amor, as seqüelas dos vícios, a poesia do marasmo do dia...
Lembro do meu feudo paraíso, Olho D’água do Borges – sim porque concordo com aquilo que falou Câmara Cascudo: “quem é do interior e de lá vive distante, possui duas vidas”.  Lá começam a se estruturar as coalizões de força para o embate político que se avizinha. Mas o modelo é o mesmo! De um lado o anjo que a todos ajuda e a tudo tem acalento e para todos os problemas a solução. Do outro o demônio que segundo o entendimento de muitos não tem nada a oferecer.
Mas o problema meus amigos é bem mais complexo do que isso. Ou melhor, aquilo a que me reportarei é bem mais essencial. Não podemos fazer da política o significado de nossa vida. Ela nunca suprirá as necessidades essenciais de um ser humano. A política é o universo pragmático, como quando vamos ao banco e pagamos a conta de água ou luz.
Ou seja, não importa o quanto o político faça para a cidade, quanto ele diga que é bonzinho ou bom administrador. Sempre restará um certo cheiro de ralo que nos chega a todo instante, não importa o quanto o político ou nós mesmos o empurremos para o mais longe possível. Esse cheiro de ralo é dele e nosso!
Acontece que todos nós ansiamos por salvação, por mudança como se a mudança nos trouxesse o tão esperado reino dos céus. Isso porque sempre acreditamos que Deus está fora de nós, o que nos salvará virá de fora. Por igual motivo estamos à espera do Cristo a toda hora. E o irônico disso é que Cristo chega alguns instantes e muitas vezes muitas pessoas nem percebem. A tradição ligada ao Budismo e outras correntes de sabedoria apresentam certo avanço nesse sentido, acreditam que nós temos um papel decisivo para o encontro com o divino e com a nossa própria felicidade, nossa paz de espírito e desenvolvimento da sensação de completude.
 Mas voltando ao que dizia, precisamos de mudanças, para nos iludirmos, seja uma nova garota (ou garoto para as meninas, óbvio), seja a idéia de que o mundo vai se acabar, que os ET’s invadirão a Terra, ou mesmo uma eleição. A guerra, o trágico, o embate, o medo, a sensação de estarmos num certo momento em uma situação e não sabermos necessariamente como se sai dela parecem nos seduzir.
Mas veja a eleição nunca resolverá nossos problemas maiores, não adianta se enganar e achar isso. Não conseguiremos fugir de nós mesmos ao gritar a vitória de um candidato, nem mesmo ao assumir um emprego fruto daquele pleito. Isso porque o financeiro também, óbvio, não resolve tais questões existenciais já citadas. É como dizia um amigo numa dessas noites em que voávamos pela cidade como no filme Meninos Perdidos: “um pobre muitas vezes pensa que essa vida é uma merda e que não tem nenhum sentido. Mas o capitalismo e o poder não resolvem isso, porque um alto milionário também sente essa vontade de se matar constantemente!”
A política é intelectual, vem do mesmo mecanismo que cria a noção de poder, status e subjugo. Afinal já estamos cansados de ver as fotos dos eventos sociais bajulatórios em que inevitavelmente se converte a política!
A política é mental, e assim como a mente é algo superficial, nunca tratará do que realmente importa.
Depois da tempestade sempre vem a bonança e vice-versa. No mundo sempre foi assim. Um passo à frente e você não está no mesmo lugar, como dizia o Chico.

Não tenhamos medo, o mal nunca triunfará. Nem o bem!


quarta-feira, 16 de maio de 2012




"Extraviados por seu eu desde um tempo sem começo, todos os seres vivos crêem que eles mesmos são coisas e, ao perder sua Mente Infinita, se transformam, portanto, em coisas".

Surangama Sutra





"Compreender o destino é ter alcançado o mais alto grau de sabedoria". 




Giordano Bruno





segunda-feira, 30 de abril de 2012

A ESTRELA







Eu caminhei na noite
Entre silêncio e frio
Só uma estrela secreta me guiava

Grandes perigos na noite me apareceram
Da minha estrela julguei que eu a julgara
Verdadeira sendo ela só reflexo
De uma cidade a néon enfeitada

A minha solidão me pareceu coroa
Sinal de perfeição em minha fronte
Mas vi quando no vento me humilhava
Que a coroa que eu levava era de um ferro
Tão pesado que toda me dobrava

Do frio das montanhas eu pensei
«Minha pureza me cerca e me rodeia»
Porém meu pensamento apodreceu
E a pureza das coisas cintilava
E eu vi que a limpidez não era eu

E a fraqueza da carne e a miragem do espírito
Em monstruosa voz se transformaram
Disse às pedras do monte que falassem
Mas elas como pedras se calaram
Sozinha me vi delirante e perdida
E uma estrela serena me espantava

E eu caminhei na noite minha sombra
De desmedidos gestos me cercava
Silêncio e medo
Nos confins desolados caminhavam
Então eu vi chegar ao meu encontro
Aqueles que uma estrela iluminava

E assim eles disseram: «Vem connosco
Se também vens seguindo aquela estrela»
Então soube que a estrela que eu seguia
Era real e não imaginada

Grandes noites redondas nos cercaram
Grandes brumas miragens nos mostraram
Grandes silêncios de ecos vagabundos
Em direcções distantes nos chamaram
E a sombra dos três homens sobre a terra
Ao lado dos meus passos caminhava
E eu espantada vi que aquela estrela
Para a cidade dos homens nos guiava

E a estrela do céu parou em cima
de uma rua sem cor e sem beleza
Onde a luz tinha a cor que tem a cinza
Longe do verde azul da natureza

Ali não vi as coisas que eu amava
Nem o brilho do sol nem o da água

Ao lado do hospital e da prisão
Entre o agiota e o templo profanado
Onde a rua é mais triste e mais sozinha
E onde tudo parece abandonado
Um lugar pela estrela foi marcado

Nesse lugar pensei: «Quanto deserto
Atravessei para encontrar aquilo
Que morava entre os homens e tão perto» 





Sophia de Mello Breyner Andresen, Livro Sexto (1962) 

quinta-feira, 19 de abril de 2012

OS RELÓGIOS DE DALI


MEMÓRIA, EIS A QUESTÃO!


MAIS O PROBLEMA É A MEMÓRIA, VELHO AMIGO! KKKK. LEMBRAMOS MESMO SEM QUERER!

O MILAGRE DA MEMÓRIA

TEXTO DE SANTO AGOSTINHO, LIVRO AS CONFISSÕES.

Vencerei então esta força de minha natureza, subindo por degraus até meu Criador.Chegarei assim diante dos campos, dos vastos palácios da memória, onde estão ostesouros de inúmeras imagens trazidas por percepções de toda espécie. Lá tambémestão armazenados todos os nossos pensamentos, quer aumentando, querdiminuindo, ou até alterando de algum modo o que nossos sentidos apanharam, etudo o que aí depositamos, se ainda não foi sepultado ou absorvido no esquecimento.Quando ali penetro, convoco todas as lembranças que quero. Algumas se apresentamde imediato, outras só após uma busca mais demorada, como se devessem serextraídas de receptáculos mais recônditos. Outras irrompem em turbilhão e, quando seprocura outra coisa, se interpõem como a dizer: “Não seremos nós que procuras?” Euas afasto com a mão do espírito da frente da memória, até que se esclareça o quequero, surgindo do esconderijo para a vista. Há imagens que acodem à mentefacilmente e em seqüência ordenada à medida que são chamadas, as primeirascedendo lugar às seguintes, e desaparecem, para se apresentarem novamentequando eu o quiser. É o que sucede quando conto alguma coisa de memória. Ali seconservam também, distintas em espécies, as sensações que aí penetraram cada qualpor sua porta: a luz, as cores, as formas dos corpos, pelos olhos; toda espécie desons, pelos ouvidos; todos os odores, pelas narinas; todos os sabores, pela boca;enfim, pelo tato de todo o corpo, o duro e o brando, o quente e o frio, o suave e oáspero, o pesado e o leve, quer extrínseco, como intrínseco ao corpo. A memóriaarmazena tudo isso em seus vastos recessos, em suas secretas e inefáveissinuosidades, para lembrá-lo e trazê-lo à luz conforme a necessidade. Todas essasimagens entram na memória por suas respectivas portas, sendo ali armazenadas.
Todavia, não são as coisas em si que entram na memória, mas as imagens dascoisas sensíveis, que ali ficam à disposição do pensamento que as evoca.
Masquem poderá explicar como se formaram tais imagens, apesar de se conhecer osentido pelo qual foram captadas e escondidas em seu íntimo? Pois, mesmo quandoestou em silêncio e no escuro, imagino, se quiser, as cores, e sei distinguir o brancodo preto, e todas as outras entre si; e isto sem que os sons, mesmo os lembrados,perturbem minhas imagens visuais, e permanecem como que a parte. Se decidochamá-los, eles se apresentam imediatamente. Mesmo quando minha línguadescansa e minha garganta se cala, canto quanto quero, sem que as imagens dascores, também presentes, se interponham ou perturbem enquanto me sirvo do tesouroque me entrou pelos ouvidos. Do mesmo modo as demais impressões, introduzidas earmazenadas em mim por meio dos outros sentidos, posso recordar a meu talante;distingo o aroma dos lírios do das violetas, sem cheirar nenhuma flor; e sem provarnem tocar em nada, mas apenas com a lembrança, posso preferir o mel ao arrobe e omacio ao áspero. Tudo isto realizo interiormente, no imenso palácio da memória. Ali eu tenho às minhas.


Postado do Facebook de Adaécio.



domingo, 15 de abril de 2012

É PRECISO ENTENDER PELA VIA DO MEIO


MAIS UM DO MESTRE

Amar: 

Fechei os olhos para não te ver
e a minha boca para não dizer...
E dos meus olhos fechados desceram lágrimas que não enxuguei,
e da minha boca fechada nasceram sussurros
e palavras mudas que te dediquei...

O amor é quando a gente mora um no outro.

Mário Quintana