quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

A PROPÓSITO DE UM COMENTÁRIO FEITO AO BLOG E OUTRAS QUESTÕES ATUAIS


Flora Fernandes disse:

O blog está de parabéns, enfim um blog com conteúdo em ODB, não aguento mais as informações de política do nosso município, se você abre um blog só vê política, uns acabando com os outros. Parabéns Adaécio!

É Flora. Em primeiro lugar obrigado. Vi só hoje o comentário.

Esse blog é uma forma de registrar algumas das coisas que venho lendo, pensando e escrevendo por esses tempos. Muita coisa não publico, porque é muito específico. Sempre escrevi coisas, tempos mais, outros menos, muito se perdeu, o blog também é uma forma de registro, organização.

Essas postagens funcionam como uma catarse, uma psicanálise, um estudo de mim por mim mesmo. Como já falei meu interesse também era que as pessoas minimamente interagissem com estes textos, porque de certa forma quando se escreve fica-se meio isolado, circunscrito num mundo próprio.

Colocarei algumas questões gerais relacionadas.

Uma das questões mais basilares com a qual me deparei em estudos e em experiências pessoais foi o fato de nossa organização lógica ocidental entender que uma coisa obrigatoriamente é ou não é, chamada de Lógica do Terceiro Excluído, que muitos dizem ser fundamentalmente contribuição do grego antigo Aristóteles, mas que recebeu contribuições diversas. Esse entrave nos impede muitas vezes de interagir de forma mais efetiva e contextual com as questões. Embora obviamente não  seja fácil e simples tentar sair desse imbróglio. Nesse paradigma lógico de que se está falando não há o meio termo (que seria a possibilidade de uma coisa ser e não-ser ao mesmo tempo, uma outra forma de organizar o pensar), justamente a terceira opção que é excluída.

Se quisermos desenvolver nossa individualidade, temos que caminhar por essa terceira via, encontrar a Terceira Margem do Rio como metaforizou o grande João Guimarães Rosa. Se não fazemos isso ficamos presos na dicotomia que apenas nos faz supostamente escolher: bem/mal, certo/errado, progresso/regresso, sucesso/fracasso e etc.. Esse foi justamente um mecanismo para nos automatizar mentalmente, pois a via do meio é a via da liberdade. Se não fazemos isso ficamos nos apegando a ídolos, a cantos de sereia, enquanto deveríamos era nos banharmos no rio da mutabilidade a todo instante. Sobre isso fiz uma poesia outro dia:

CADÊ? ... CADÊ? O QUE?

Não aguenta ficar sem o por que.
Cadê, cadê?
Aquele é o herói.
Aquele o bandido.
Aquele o achado.
Aquele o perdido.
Não consegue encarar que você é você.
E consigo, é consigo! 

Essa nossa forma atual de entender as coisas parece estar ligada com a forma como vivemos, comprando, recebendo as coisas, ao invés de construirmos. Assim como vamos ao supermercado comprar coisas, adquirimos ideias, cartuchos mentais, como é colocado brilhantemente no filme Matrix. Isso inclusive parece ser o responsável pelo dano mental que acomete a humanidade nesses tempos sombrios atuais, pois nem sequer minimamente vivemos aquilo que pulsa no nosso intimo.

Será que é possível falar sem exercer poder, fomentar poder, desequilíbrio, opção? É nesse ínterim que me coloco. Esses textos, como já falei, são como uma autoavaliação, uma hermenêutica, algo psicanalítico, terapêutico para comigo, talvez uma forma de externar questões relacionadas a essa busca essencial.

Vejo as pessoas falando sobre mudanças partidárias, como se isso fosse realmente o que importa.

Um ídolo de massa dizendo que as pessoas não falam com ele e/ou o elogiam porque têm vergonha, mas que no fundo são suas fãs. Não sabe ele que para muitos o que ele fala não diz nada.  Que as pessoas têm autonomia. Isso porque nenhuma opinião tem a prerrogativa de ser julgamento absoluto sobre nada, como bem frisou o filósofo Wittgenstein numa conferencia sobre ética. Inclusive nem esse texto, obviamente!!!

Vejo outros dizendo que o sucesso daquele é importante porque assim podemos nos sentir parte desse sucesso (quanta carência!).

Vejo um jovem – na verdade um novo que já nasce velho, como diz a canção - suposto candidato a prefeito falar de progresso, quando é fácil perceber, como muitos colocam, inclusive o já falecido brasileiro Gilberto Dupas em O mito do progresso, que essa estória de progresso na verdade não passa da mais nociva construção ideológica criada pela modernidade, que distancia ao invés de aproximar as consciências.

Deixando claro, trilhar a terceira margem do rio não é ser conivente, mequetrefe, entender que tanto faz como tanto fez, nem apenas criticar por criticar. É justamente o contrário, é assumir a individualidade que pulsa em cada um de nós a cada instante, é entender, que, como dizia o Raul Seixas, “o bem e o mal vivem eternamente em um romance astral, que cada um é uma estrela, e que o mel é apenas um defeito do fel e vive-versa”.  

Lembro ainda do que disse o grande poeta potiguar Miguel Cirilo, no seu único livro, Os elementos do caos:

Nessa vida, “ter razão é muito pouco”!

Prof. Adaécio Lopes

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

MAIS UM TEXTO DE PABLO CAPISTRANO (www.pablocapistrano.com.br): Deivid: o Ser e o nada

A grande dúvida filosófica expressa na metafísica dos velhos pensadores gregos pode ser sintetizada na pergunta: porque o Ser e não o nada?

Essa pergunta fundamental vem maravilhando pensadores, poetas, místicos e cientistas há milênios. Ela tem conotações tão intensas e profundas, que interferem significativamente em nossas construções metafísicas, em nossas crenças, e em nossa fé na permanência do mundo ou em nossa esperança na existência da “vida após a morte”.

Diante da ausência, do vazio, da estranha sensação de que algo se perdeu, de que um ente querido, que antes vivia ao nosso lado, partilhava da nossa vida, caminhava conosco, agora não está mais aqui, construímos nossas respostas, nossas alternativas, nossas doutrinas.

Mas se o nada é esse abismo, no qual nossas impressões e esperanças precipitam, ele também, muitas vezes, pode ser o nosso mais confortável refúgio.

Estive pensando essa semana, amigo velho, nas coisas do futebol. Não houve comentário mais caloroso, espanto mais intenso, assombro mais retumbante nas intermináveis rodas de comentários futebolísticos do que o gol perdido por Deivid, (atacante do Flamengo) na semifinal da taça Guanabara contra o Vasco.

Particularmente eu acho que um gol perdido é uma antecipação da morte.

O espantoso é perceber como o caso Deivid foi útil para a torcida do Flamengo.

A massa rubro negra sublimou a derrota para o Vasco apagando o belo gol de Wagner Love, deletando a infelicidade de Felipe que espalmou a bola nos pés de Alexsandro após o magnifico chute de Juninho de fora da área, sepultando a cabeçada de Diego Souza. Trocamos todos os gols daquela partida pelo gol que não existiu. Escolhemos o nada, ao invés do Ser.

Não ressaltamos o que ocorreu. Não permitimos que a primeira derrota do mais querido em um clássico estadual no Engenhão pudesse se fazer sentir. Nos precipitamos no abismo da ausência com uma revolta estratégica que nos ajudou a negar o jogo que assistimos. Não tivemos pudor em chafurdar no vazio, mesmo que, para isso precisássemos imolar um de nossos jogadores no altar de nosso amor irracional, de nossa compulsão inexplicável e tresloucada por um time de futebol.

Foi a paixão, amigo velho, que move o coração da massa rubro negra no Brasil, que apagou a derrota para seu maior rival, com aquela antecipação da ausência, com a mórbida radiografia do nada, que emerge em um gol impossível de se perder.

A náusea filosófica que tomou conta do Brasil, alimentando explicações, teorias, justificativas morais, julgamentos técnicos dos mais discrepantes, nos levou a inverter a velha dúvida radical dos antigos gregos: como é possível o nada, quando o Ser é inevitável?

Deivid, coitado, foi a grande vítima dessa paixão sem fim que faz com que um jogo qualquer deixe de ser só um jogo e passe a ser uma metáfora.

Alguns gols perdidos se tornam canônicos por sua beleza abortada (como o de Pelé contra o Uruguai na semifinal copa de 1970), outros, pela sua fatalidade esportiva (como o pênalti que Zico perdeu contra a França em 1986). O não gol de Deivid já entrou no cânone da nação rubro negra por sua função psicanalítica e pela sua radical impossibilidade ontológica.
Nação rubro negra, vamos agradecer a Deivid!
Ele nos ofereceu o nada que nos salvou da derrota.

INÍCIO DE DIA


Início de dia.

Farrapos de agonia

insônia e melancolia

boiando na água fria.

sábado, 25 de fevereiro de 2012

VERSOS À LUA


A morte chegou nem vi
a sombra da face sua
continuei meu cantar
por entre as pedras da rua
alimentando-me da força
do vivo claro da lua.



A lua me embriaga
com sua silhueta nua
toque de mistério vivo
por entre prédios da rua
antena do devaneio,
é meia, a noite sem lua.



Lua que é o ponto
na interrogação da gente
girando à nossa volta
bem na cadencia da mente
em um movimento eterno
mostrando que a mente mente.

ADAÉCIO LOPES

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

ESSA REALMENTE FOI DEMAIS: TANTO FAZ? COMO ASSIM?

“Olho D’água do Borges, aqui viver e sonhar... tanto faz.” Quando vi estes dizeres presentes nesta tal placa recém colocada na cidade, a primeira impressão foi de que algo estava meio errado: “com assim, eles estão dizendo que nem o sonho atenuaria o fato de viver em tamanho autoritarismo? Que não importa o quanto sonhemos, a realidade será sempre a mesma?” Embora não eliminando a possibilidade de entender isso ou qualquer outra coisa, afinal a placa está lá e a frase é bastante confusa, tenho claro que a intenção foi outra.
Dessa vez a coisa entornou de vez, a administração municipal foi longe demais. Que tente controlar seus funcionários, assessores e correligionários de forma geral, se entende, afinal, se eles têm o livre arbítrio, e mesmo assim permitem esse estado de coisas, o que se pode fazer, li em algum lugar uma máxima atribuída a Platão: “Em vão se busca tirar da chuva aquele que insiste em se molhar”. Agora estabelecer a relação entre o sonho, aquilo que temos de mais livre nessa enfadada existência, e o fato de vivermos na sua cidade - como ele deve considerar, já que não consulta ninguém para tocar seus entendimentos -, é algo extremamente grave e problemático.
Antes que alguém diga que eu estou exagerando, gostaria de colocar algumas coisas. Outro dia estava no consultório do dentista, na sala de espera, e naquela ânsia que antecedia o momento em que ele ia escarafunchar a minha boca (nada contra o dentista, lógico), peguei uma revista (acho que era uma Carta Capital que estava em cima da mesa) – diga-se de passagem, essa é uma das únicas revistas que ainda dá para ler, dessas semanais mais difundidas. Na revista li uma interessante matéria, que mostrava como as grandes corporações não estão mais interessadas apenas em publicitários para seus anúncios, mas procuram também o trabalho dos neurocientistas e psicólogos para entender como uma ideia pode grudar na mente de uma pessoa sem que necessariamente o camarada perceba: a hiperespecialização da covardia.
Pois é, meu caro, não pense que quando a televisão sintonizada na Rede Globo diz para você, naquele ar fantasmagórico e sobrenatural “Globo, a gente se vê por aqui”, a emissora está querendo ser cordial e simpática ao utilizar um suposto trocadilho para interagir com você. Na verdade - e aqueles estudos de psicologia e neurociência tratam disso -, o fato é que, como nossa mente funciona de forma analógica, ela liga esse enunciado ao fato de que só podemos entender as coisas através das informações e explicações dadas pela televisão. Visão nesse sentido é sinônimo de visão de mundo. Você acha absurdo, pois esse é o mesmo mecanismo que faz a Coco-Cola ser o refrigerante mais vendido do mundo (embora exista outras questões sérias relacionadas a este refrigerante e seu poderio, que podemos entender ao ler, por exemplo, o livro Por Deus, pela Pátria, pela Coca-Cola), que explica o fato de as propagandas de cerveja estar sempre associadas a lindas mulheres, e comerciais de cigarro mostrar paisagens e ações que remetem à liberdade.
Por tudo isso, essa placa não tem nada de novo. Em linhas gerais, apenas reitera uma coisa que até as pedras da rua sabem: a administração da nossa querida Olho D’água é extremamente autoritária, e inclusive não sinaliza em nada para uma convivência sadia que brote da Democracia. Afinal, assim como coloca o Prof. Edson Passetti, conhecido pensador brasileiro das causas libertárias, ligado à PUC do Rio, a Democracia é o regime menos ruim de todos, pois possibilita que brote do seu substrato práticas detentoras de liberdade.
Quando se critica a Democracia é por entender que as pessoas tendem a achar que apenas o fato de estarmos nesse panorama democrático é suficiente para as coisas acontecerem. E não é bem assim, a Democracia está ai, agora a liberdade, meu velho, é você que conquista, a cada instante de sua vida. E, diga-se de passagem, não é de hoje que sabemos, inclusive, que aquilo que mais marca um regime autoritário é o fato de investir pesadamente em propagandas que constroem discursos e modificam a realidade das coisas: primeiro foi, “Aqui tem cidadania!” e outras coisas do gênero, agora isso. É preciso que não deixemos que estas coisas passem sem que sejam percebidas, pois como diz a música Novo Dia da banda de Reggae carioca Ponto de Equilíbrio:

Para ser... não é só parecer
para ser, iêêê, iêêê
muito mais do que
só aparentar e aparecer.

Vamos nos aceitar,
viver no bem estar,
vamos nos redimir,
nos reconciliar...

Vamos nos aceitar,
viver no bem estar,
vamos nos redimir,
nos equilibrar...

Dá pra ser muito mais, vamos ser,
dá pra ser muito mais...
vamos ser, vamos ser,
vamos ser... vamos ser...

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

A POLÍTICA E OS ÚLTIMOS ACONTECIMENTOS E MUITAS OUTRAS QUESTÕES


Como aprendemos nas primeiras lições escolares sobre História, o Brasil é o produto de uma invasão, expropriação, usurpação. Desde o surgimento da “pátria amada”, uma pequena elite conduz, à revelia da maioria, os destinos do país. Esse é o nosso ethos político.
            Isto de certa forma foi responsável, eu diria, por outro fenômeno a ser considerado e entendido. Como, diferentemente de outros países, o Brasil não foi criado como um projeto de nação, incluindo pessoas que tem relação com a terra e que buscam uma forma de resolver as questões para o bem da coletividade, a política no Brasil não é entendida como a forma de organizar um empreendimento coletivo, mas uma estratégia para conseguir se dar bem individualmente e a qualquer custo. Esse é o ponto!
            A própria chamada redemocratização na verdade foi um acordo. Acordos esses que continuam desde então a acontecer, isso é notório, haja vista que os políticos, os caciques, que participaram daquele momento são figuras praticamente blindadas nestes tempos de mensalão. Nesse sentido, a corrupção é o jogo duplo também são componentes inerentes à política nacional. Veja, obviamente, não se está justificando tal ação, nem outras de que trataremos adiante, muito pelo contrário, se está apenas fazendo entender o que move a mentalidade política e a organização social brasileira.
            E em um panorama como esse o desenvolvimento da autonomia, da individualidade – veja, individualidade é absolutamente diferente de individualismo – não tem muito espaço e/ou é praticamente desconsiderado nas práticas sociais da esfera pública. O que é praticado e estimulado na verdade é a lisonja, e uma certa mitologização e idolatria a alguns indivíduos, o que está muito em acordo com os coronelismos – sim, porque o coronelismo não se resume ao plano político mas está relacionado ao controle ideológico e psicológico, às esferas mais recônditas do ser. Por isso, no Brasil e principalmente no Nordeste, é mantido, encorajado e desenvolvido este mecanismo de sujeição, policiamento e controle das mentalidades, o que alimenta uma certa carência afetiva e de atenção naqueles que compõem o plano social: “eu conheço ele”, “ele é da minha cidade”, “ele é meu amigo” e etc..
E como parte disso, o fato de sermos um povo alegre – e isso é um fato real e algo muito positivo, somos por natureza alegres – passa a ser uma condição para tal controle, para a política de pão e circo, mediante a utilização de elementos advindos da arte. Qualquer base melódica que tenha como letra algo que rime, como, por exemplo, “memé com bebé e um caboré”, é considerado exemplo arte no nosso país.
Por isso não deveria ser algo sobre o qual se manifeste admiração o fato de os políticos, nesses períodos de campanha antecipada, articularem seus pulos de palanque visando o interesse próprio. A prova maior dessa ética política de que se falou até agora, é o fato de que muitos desses políticos nem sequer têm noção de quão ridículos estão sendo ao manifestarem essas práticas, pois é algo mecânico, natural. Quando são questionados sobre isso respondem: mas não é isso a política? Não é essa a sua essência?

sábado, 11 de fevereiro de 2012

A CAMINHO DA ANTIGA MORADA COLETIVA . . . LEMBRANÇAS QUANDO DA CASA DO ESTUDANTE DE NATAL


Castanholas e seu aroma inebriante
Do alto do barranco vejo o Rio Potengí
Num pôr-do-sol radiante
Cujos raios esvermelharelam o resto de tarde.

Ao som de pardais e pombos,
Uma estranha sensação:
“Tudo me é vivo e perto”.
Embora toda tarde fizesse aquele trajeto.

Casinhas, vasos de flores, alpendres e varandas
Aportei em um conto distante.
Fachadas antigas do grande prédio.
Um misto de alívio e devaneio continuado.

Formas? What is formas?
Um navio, a Linha do Trem, a Pedra
O Arreal, o Passo, O mangue: a tela.
Aos poucos vou voltando pra casa...

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

PARA AQUELES QUE ACHAM QUE A POESIA ESTÁ A SERVIÇO DO PODER E DA LISONJA, ALGUNS POEMAS DE MARIO QUINTANA

PUDOR


Se tua vida não puder ser uma tragédia grega
- por amor de Deus!
- não a faças um tango arginto...


PRETO NO BRANCO

A arte de escrever é, por essência, irreverente e tem sempre um quê de proibido: algo assim como essa tentação irresistível que leva os garotos a riscar a brancura dos muros.


O POEMA

Um poema como um gole dágua bebido no escuro.
Como um pobre animal palpitando ferido.
Como pequenina moeda de prata perdida para sempre
                                                                            na floresta noturna.
Um poema sem outra angústia que a sua misteriosa condição de poema.
Triste.
Solitário.
Único.
Ferido de mortal beleza.


O POEMA 

O poema é uma pedra no abismo,
O eco do poema desloca os perfis:
Para bem das águas e das almas
Assassinemos o poeta.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

TRAGÉDIAS PARTICULARES - POR PABLO CAPISTRANO* (www.pablocapistrano.com.br/)

* Pablo Capistrano é professor do IFRN e escritor. Tem raízes na cidade de Olho D'água do Borges, mais especificamente nos sítios Timbaúba e Cardosos, sendo parente de Rui, Osório e José Barbosa, como também de Dona Nazinha de Félix e dos Paiva's em geral. É uma figura massa, um caro amigo. As ênfases no texto, através de grifos, foram feitas por Adaécio.

Em uma carta para George Orwell, data de 1949, Aldous Huxley escreveu o seguinte: “Dentro de uma geração, acredito que os líderes do mundo descobrirão que o condicionamento das crianças e a narco-hipnose são mais eficientes como instrumentos de governo, que porretes e prisões, e a avidez pelo poder tanto pode ser satisfeita ao se levar as pessoas a amar sua servidão, quanto espancando-as e as obrigando a obedecer”.

Poucas percepções sobre o futuro, que emergiram do sombrio cenário da guerra de quarenta na Europa, me soam tão exatos quanto esse presságio de Huxley. Muito se comenta sobre as grandes catástrofes humanitárias do século XX. O holocausto nazista, o stalinismo na URSS, os totalitarismos de Estado, com seus massacres monumentais e seu direcionamento das massas para a conflagração da guerra. Mas, amigo velho, pouca gente se dá conta que existem outros modelos de extermínio coletivo, tão perniciosos e fantasmagóricos quando esses que ocorreram com os auspícios dos Estados nacionais no século XX.

Semana passada Natal adormeceu assustada com o tiroteio em uma padaria de Petrópolis, bairro da elite jerimum do RN. Um assalto assustou a vizinhança mais sofisticada da cidade, local para onde a prole dos ricos fazendeiros do interior veio morar quando saíram de seus sítios; de seus pés de serra nos anos sessenta do século passado, para ocupar suas vagas no jet set matuto da capital potiguar.

A tragédia da jovem que ficou paralítica após um assalto no bairro mais chique de Natal é só mais uma que se espalha a cada dia pelos arredores da cidade. Não sei amigo velho, se você já percebeu, mas hoje, Natal é o cenário de um massacre. Um extermínio cotidiano que vem se avolumando nas páginas policiais de nossos jornais diários.

Não tenho estatísticas exatas, mas sei que a quantidade por mortes de armas de fogo e acidentes de automóveis no Brasil já teve promovido um holocausto social digno de Pol Pot.

Nosso condicionamento, cultivado desde a infância pelos narcóticos eletrônicos e pelos estímulos do mercado livre, produziu no Brasil dos últimos vinte anos a degradação dos laços comunitários, o desmantelamento da escola, da família e da Igreja (tradicionais mecanismos que mantinham as estruturas sociais brasileiras, por mais injustas e aristocráticas de fossem, sobe o controle do Rosário e da chibata).

No lugar da velha ordem agrária, teológica e aristocrática, adotamos um modelo de mercado sintonizado com a nova fase do capitalismo (descrito pelos estudiosos como “capitalismo com dominância financeira”). Aprendemos a cultivar como imperativos sociais os sinais exteriores de riqueza, a insatisfação perpétua dos desejos como motores de nossas ações, a competição sem freios pelo mercado de trabalho, a necessidade de sempre mais, o objetivo maníaco de crescer sem parar e avançar em direção a algum lugar que não sabemos bem qual é.

Adotamos a lógica narcótica dos novos senhores do mundo que nos auxiliam com suas redes financeiras gigantescas a mover a roda do moedor de
carne humana do sistema econômico. Participamos da festa. Sopramos a bolha. Nos aproveitamos do surto coletivo e surfamos na onda do progresso. Mesmo assim, nos assustamos quando uma bala atravessa a coluna vertebral de alguém que almoça em uma padaria, ou quando “mais um corpo decapitado é encontrado em um terreno baldio na periferia de Natal”. No primeiro caso, nos assustamos mais do que no segundo, é bem verdade, porque afinal, há sempre o consolo mórbido de que em toda morte de periferia “parece que a vítima tinha envolvimento com drogas”.

Estamos chapados, amigo velho. Entorpecidos com a grande churrascaria Brasil. Movidos a cerveja, carne de gado e música de baixa qualidade. Vibrando nas caçambas de nossos 4X4 a espera do próximo surto, aproveitando a onda da bolha de riqueza que aportou em nosso paraíso particular de consumo.


Se cinquenta mil pessoas são mortas por ano no Brasil vítimas de armas de fogo: paciência! O sistema não pode parar por causa disso. Hoje, não temos mais tempo para sofrer com a tragédia coletiva de nosso progresso. Hoje, no Brasil, só existem tragédias particulares, em toda sinistra solidão de seus excessos.


segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

MUNDO, VASTO MUNDO


Mundo, vasto mundo.
Disse o poeta fecundo.
Também não sou um Raimundo.
Mas acho que entendi,
o imperativo profundo
Que há no seu vasto mundo.
E assim como o mineiro
de espanto fui ao fundo.
Mundo, vasto mundo.
Cada instante uma flor
nesse pantanoso mundo.
Mas essa flor só nasce
lá na encosta do mundo,
pertinho do fim do mundo,
quando passa o pavor
daqueles que estão no mundo.
Pois flor não nasce de pedra
mas só nos jardins de cima,
sem pedras, num outro mundo,
do qual esse vasto mundo
é uma estação factual,
visagens que passam ao fundo?