segunda-feira, 25 de julho de 2011

A PROPÓSITO DA MORTE DE AMY WINEHOUSE

Quando soube da morte desta cantora inglesa de certa maneira antevi quais seriam as manchetes e os comentários de quase todos os artefatos midiáticos sobre este acontecimento. Isso não advém de uma capacidade supra-humana de prever o futuro. Acontece que não é de hoje que a incompreensão acerca das tragédias de nossos tempos está presente nas falas da maioria dos comentadores de jornais, revistas e etc..
O primeiro problema e talvez central diz respeito ao fato de que estas pessoas estão demasiadamente imersos nesse modelo de vida burguês, do trabalha-compra-come-dorme, para entender aqueles que se aventuram numa vida mais rica de significados e realização, embora detentora de riscos e fatalidades.
É fato que nesse mundo sempre existiram diversos tipos de seres humanos. Os fazedores de coisas, os comerciantes, os loucos, os marginais, os sábios, os intelectuais e os poetas. A questão é que cada vez está mais difícil para os poetas, os visionários, os músicos e similares viver neste mundo entupetado de carros, lixo, selvas de pedras, ganância e poder. O mundo se transformou numa grande engrenagem onde quem não está disposto a ser um de seus parafusos é despejado como dejeto. O homem nunca teve tantas obrigações como na época atual. Os organismos internacionais, Ong´s e muitos outros institutos mostram que a humanidade hoje trabalha mais do que em muitos regimes escravocratas (por favor, não me entenda mal) e tem cada vez menos tempo para questões realmente importantes para a existência: o lazer, a criatividade, a diversão, os rituais e etc..
Por isso não compreendo quando a mídia fica discutindo a morte “prematura” de artistas e seres humanos em geral ocasionada pelo uso de substancias psicoativas culpando com isso apenas estas pessoas ou tais drogas. Não estou aqui defendendo o uso destas substancias, até porque sei o potencial destrutivo que tais psicotrópicos podem trazer à vida de um individuo. O que quero é chamar a atenção para o fato de que culpar a substancia pura e simplesmente por esses acontecimentos é a mesma coisa que culpar o machado pela queda da árvore.
Essa questão deveria ser discutida num nível bem mais complexo. Os humanos sempre utilizaram de artifícios para alterar a consciência, para se manter acordado, para dormir ou para o que lhe desse na telha, todos nós sabemos disso. Cachaças, fumos, chás e garrafadas fazem parte da história da humanidade tanto quanto as pessoas. Acontece que na época atual existem algumas peculiaridades que fazem toda a diferença. Estas substancias que tinham um sentido quando usadas outrora, hoje são comercializadas em larga escala têm um caráter profundamente destrutivo. Vejamos algumas nuances.
Primeiro. Todos aqueles que se sentem acuados, instintivamente, manifestam a busca pela fuga. É comum escutar relatos de viciados em drogas que falam que tinham tudo do ponto de vista financeiro e material, mas lhe faltava algo. Não é muito difícil perceber que este algo não está no dinheiro, não está num bom emprego, nem numa posição social confortável. Este algo está em outro lugar. Acontece que da forma como as coisas estão, com a rapidez que é exigida das pessoas, muitas não têm tempo de pensar, de conversar, de buscar aquilo que lhes falta: que é a poesia, a beleza, a melodia, um componente maior que permeia todos nós principalmente quando estamos juntos festejando. Como forma de anestesiar esta agonia muitos mergulham no universo destas substancias, que muitas vezes ou quase sempre não tem volta. Nesses tempos sombrios em que os poetas chegam a pensar que seus “heróis morreram de overdose e os inimigos estão no poder” (CAZUZA) é preciso entender a conjuntura do abismo para que possamos compreender a situação e poder assim fazer algo realmente eficiente e eficaz.
Segundo. O pior de tudo isso é que nesse sistema nefasto que é o capitalismo, onde tudo se transforma em mercadoria, inclusive as simbologias e os sentimentos, as drogas também são fonte de lucro e ajudam a movimentar o mercado. Veja a que ponto chegamos! Existe uma indústria global que sintetiza, distribui e altera essas substancias, potencializando e disseminando o vício. Aquelas substâncias que já eram poderosas, agora se tornaram incontroláveis na sua capacidade de agir nos neurotransmissores, alterar a realidade e viciar pessoas.
Uma coisa acaba alimentando a outra, por incrível que pareça. A um camarada que sofre as angustias de viver num mundo no qual não se encontra - pois a personalidade é construída, mas a centelha primordial nós trazemos conosco antes mesmo do primeiro choro -, é dado um falso remédio, que tem suas seduções.
Se você acha que isso que eu estou falando é pesado demais, é assombroso e coisa de louco, eu sinto muito em lhe informar que esse mundo também é seu meu velho, é nele que você está vivendo, e se você quiser realmente fazer alguma coisa tem que agir bem diferente do que você talvez esteja fazendo.
Estamos todos na corda bamba, por mais que muitos não percebam isso na sua corrida diária contra o tempo. Tempo que nós humanos e animais criamos na nossa interação com o meio, diga-se de passagem. Estamos sendo massacrados pela impessoalidade da engrenagem, pelo descaso do homem para com ele mesmo, pelo apego a uma corrida que não tem chegada e, portanto, não tem vencedores. Os nossos antepassados tribais é que estavam certos: a vida é feita para festejar, reverenciar os deuses que estão em todos nós e no cosmos e não para apertar parafuso e produzir discursos.
Portanto, Amy, assim como Janis Joplin, Jimi Hendrix, Kurt Cobain, Jim Morrison, Cássia Éller, Raul Seixas, Michael Jackson e muitos outros, são lampejos sintomáticos de uma época de caos, muito mais do que pessoas desajustadas que não sabiam o que era o bom da vida. Essas pessoas não se encaixaram na forma de vida que o mundo nos obriga a seguir, são estrelas que colapsaram para dentro de si mesmas por não poder irradiar toda a sua luminosidade. Meditemos sobre isto, para que não aconteça algo semelhante com nós mesmos, afinal as pessoas muitas vezes desenvolvem conflitos mentais devido à falta de um mínimo conhecimento acerca de si mesmos. Afinal, como disse Chico Science, outro cometa que passou por aqui, “esse corpo de lama que tu vê é apenas a imagem do que sou, esse corpo de lama que tu vê, é apenas a imagem é tu”. E como acredito que a arte é o melhor caminho encerro com arte:

“a gente não quer só comida
a gente quer comida, diversão e arte.
a gente não quer só comida,
a gente quer saída para qualquer parte.
a gente não quer só comida,
a gente quer bebida, diversão, balé.
a gente não quer só comida,
a gente quer a vida como a vida quer
[...]
a gente não quer só comer,
a gente quer comer e quer fazer amor.
a gente não quer só comer,
a gente quer prazer pra aliviar a dor.
a gente não quer só dinheiro,
a gente quer dinheiro e felicidade.
a gente não quer só dinheiro,
a gente quer inteiro e não pela metade”.

Titãs, música Comida


Ritualizemos.
Adaécio Lopes
www.aosvivosdailhadailusao.blogspot.com

quinta-feira, 21 de julho de 2011

A GREVE ACABOU, MAS A LUTA APENAS COMEÇOU

"Ei escute, você que está ai sentado, há um líder dentro de você. Governe-o, faça-o falar, faça-o falar!!!"

Chico Science, cantando “Todos estão surdos” de Roberto Carlos


Essa greve foi importante por muitos aspectos. Ficou entendido que os professores têm sim capacidade de fazer um movimento político, embora ainda tenha-se muito o que fazer nesse sentido, já que a participação poderia ser muito maior do que aquela que presenciamos.
Espero que tenha ficado claro para todos os professores, que nem o poder legislativo, nem o poder executivo e muito menos os nossos representantes sindicais atuais, que estão à frente da direção estadual, serão responsáveis por melhorias, mas que a luta efetiva e constante desta categoria será o único caminho para uma melhoria efetiva da educação e da qualificação profissional dos educadores.
Desde o início a direção estadual do Sinte/RN foi contra este movimento. Estive presente, de uma forma ou de outra, em todo o movimento grevista e posso afirmar a forma enviesada com que este sindicato defendeu e encaminhou suas teses. É vergonhoso para todos nós ver os dirigentes de uma instituição representativa de professores e funcionários da educação fazer o jogo do governo e amedrontar a categoria e com isso conduzir para o fim da greve. A partir deste momento todos os nossos esforços devem ser concentrados para extirpar do movimento sindical essas pessoas que não estão á altura de representar e de liderar o nosso movimento.
Parabéns a todos e todas que abraçaram esta causa e que como eu estão agora indignados com a forma como o sindicato conduziu o fim deste movimento. Espero que assim como eu, todos também tenham sentido o sangue correr mais depressa nas suas veias, a emoção de fazer parte de uma coletividade, como se por um instante não fossemos Adaécio, Joaquim, Maria ou Benedito, mas parte de algo maior que nos perpassa. E eu lhes garanto que isso tudo não foi em vão, nem aconteceu por acaso, as pessoas voltaram a ir às ruas, a questionar a forma como as coisas estão sendo encaminhadas nos quatro cantos do mundo.
Esse movimento nos permite perceber que as coisas já não estão assim tão bem nesse mundo que há muito tempo está entregue à sua própria sorte. Como passageiro de um móvel relativístico fui percebendo mediante esta greve, as alterações e as distorções ocorridas na sociabilidade dos humanos e muitas outras questões que me foram surgindo – coisas que se estando no sedentarismo político diário não se dá conta.


Abraços a todos.
Profo Adaécio Lopes

terça-feira, 19 de julho de 2011

SOBRE A GREVE E AS AMEAÇAS DO GOVERNO AOS FUNCIONÁRIOS DA EDUCAÇÃO

Saudações a todos.

Ontem estive presente em mais uma das assembléias do movimento grevista dos professores do estado do RN. Confesso que foi uma das situações que me fizeram confiar mais ainda no poder popular e na capacidade da coletividade, quando unida, em lutar e questionar. Como diria um amigo meu sociólogo, ninguém é tão bom como todos nós juntos.
Os representantes da categoria ali presente decidiram “só deixar o movimento no último pau-de-arara”, deixando bem claro que o “risco que corre o pau corre o machado” – estou transcrevendo fala dos colegas. Isso tudo que estou falando pode ser verificado por todos, afinal as assembléias vêm sendo transmitidas em tempo real pela internet. Para todos os presentes ficou claro que as ameaças do governo são infundadas, sendo uma tentativa de amedrontar a categoria. Todos nós sabemos que o governo estadual nunca teve muito interesse em dar aquilo que nos é devido em termos de direitos – não falo nem de melhorias no plano geral, falo de direitos nossos assegurados por leis estaduais que versam sobre o plano de carreira do funcionalismo estadual, que determinam as promoções e mudanças de nível e que há muito tempo processos nesse sentido estão parados.
Agora, sabemos também que o estado não tem, nem querendo, como da noite para o dia conseguir mobilizar seus funcionários, acostumados ao marasmo da burocracia pública para agora fazer todo o apanhado necessário a essa represália de corte de pontos e etc.. Até porque, a maioria dos diretores não está se curvando aos ditames do governo, não estão mandando os nomes. E sobre o fato de uma possível demissão em massa o advogado do Sinte/RN foi muito claro: “vocês gozam do direito de estabilidade, um direito constitucional, e ainda mais, vocês têm o direito de estar em greve, pois esta foi decretada abusiva, e não ilegal, como estão falando por ai. Portanto, sobre essa questão de demissão não se deveria nem sequer estar discutindo aqui”. Informou também que o Sinte recorreu na justiça da decisão do governo e deixou claro que vai a todas as instancias, inclusive ao Supremo Tribunal Federal.

Pois é meus amigos, quando eu dizia que os professores não estavam brincando o pessoal não acreditava. O governo na verdade está com medo das sanções com relação a ele sobre os prejuízos do ano letivo e por isso está atirando para todos os lados para ver se assusta os professores, mas o tiro está sim saindo pela culatra e a vitória é aquele lugar que nos espera depois do horizonte. E o movimento dos professores hoje é inclusive ponto gerador de discussão com relação ao judiciário e o executivo deste estado.
Coloquemos também que os estudantes estão do nosso lado. Mais de uma centena de estudantes da Escola Estadual Floriano Cavalcante, de Natal, estão acampados na governadoria em apoio aos professores e ao Movimento Levante do Elefante, em protesto ao governo Rosalba, como também alunos de outras escolas e alguns professores.
Portanto, meus camaradas, nós não temos de que ter medo, até porque sem salário nós já vivemos há muito tempo. E sobre o medo, esse nosso companheiro inseparável, devemos vencê-lo, pois nada adianta na vida ter vivido sem sentido, sem ter feito aquilo nós achamos correto e acreditamos. “Antes que venham os maus dias e cheguem os anos dos quais dirás: não tenho neles prazer; (...) antes que rompa o cordão de prata, e se despedace o corpo de ouro e se quebre o cântaro junto à fonte” (ECLESIASTES, 12), nos sintamos vivos para lutar e resistir.

Um abraço a todos.
Adaécio Lopes

domingo, 17 de julho de 2011

DEIXE SUA ESTRADA EM PAZ

DEIXE SUA ESTRADA EM PAZ


Deixe sua estrada em paz.
Deixe que cada instante se vá num ondular infinito.
Não tente resolver suas questões recorrendo ao arquivo,
Ele te sugará para sempre.


Pinte a aquarela de sua vida
Deixando em alto relevo os seus traços pessoais.
Não tenha medo da transfiguração que te libertará de si mesmo.
Nem da transfixação que te fará ver o outro lado da lua.


A partir do momento que se fixa num canto, numa persona
Inevitavelmente terás que empreender uma guerra
Terá que marcar seu território.
E essa é a maior de todas as escravizações.


Que havia antes do econômico?
A resposta para essa pergunta será uma resposta.
Tão prisioneira quanto a pergunta.
Será mais uma armadilha.


Vasculhará a história humana em busca de uma resposta.
E ela virá, mais o mistério, esse continuará lá, intocado.
Porque as coisas são.
Pois o mundo é, e nenhuma explicação o fará seu ser.


Só a poesia fará a conexão da vida com a morte.
Só ela lhe fará parte do todo.
Isso porque é a narrativa do instante.
Não lhe obriga ao futuro.


Resistir ao tempo sem ser tempo
Esse é o ponto daquele que é vivo na ilha da ilusão
Daquele que entende que o pássaro e seu ninho
Não é apenas uma demonstração do comportamento animal


Para alguns é possível viver na simulação como arte
Para outros é preciso ação.
Para alguns é possível viver duas vidas
Para outros nada substitui o salto na imensidão.


Adaécio Lopes
12/07/2011

O TAL DANO DA GREVE


O TAL DANO DA GREVE
Pablo Capistrano – Professor do IFRN e Escritor


Tem danos que vem com a ausência. Tem outros que chegam mesmo na presença. Lembro de ter ouvido uma história em Santa Cruz, sobre uma aluna recém concluinte do ensino médio que chorou diante de uma prova de vestibular da UFRN.
Quando ela abriu a prova de Física entrou em pânico. Nada daquele vasto universo de conceitos exóticos e intrincadas ideias, transmutáveis em fórmulas matemáticas, fazia sentido para ela. A garota havia passado todo o ensino médio regularmente matriculada na rede pública de ensino do estado do Rio Grande do Norte e havia estudado apenas um assunto da disciplina de Física.
Um único, inexpugnável, irredutível, tema. Uma única e absoluta problemática. Uma só grande questão desde que Galileu, Copernico, Newton e Heisenberg pisaram sobre a terra. Um mesmo tópico, alçado a tal categoria de abrangência, que parecia resumir tudo o que os físicos construíram em quase três mil anos de ciência ocidental. A garota havia passado o ensino médio estudando Movimento Retilíneo Uniforme e Movimento Uniformemente Variado, nada mais, nada menos.
Um ex-aluno, também recém formado no ensino médio, fazia as vezes de professor, ocupando um espaço vago na sala de aula, tentando, com seu esforço pessoal, suprir as carências daquela turma. Como o rapaz, sem perspectiva de uma graduação na área de Física, só dominava esse tema, só tinha condições de ensinar esse único tópico.

A despeito de ter ou não acontecido desta forma, essa surrealista história nos alerta para um dado muito evidente: o dano pedagógico não se cristaliza apenas quando a escola está fechada, com seus servidores mobilizados por uma greve.
O dano pedagógico também se processa quando as portas da escola estão abertas e se manifesta costumeiramente em uma carência, em uma ausência, em uma desconcertante ilusão: a ideia de que o fato de o aluno estar em sala de aula é razão necessária e suficiente para que a qualidade do ensino se manifeste.
Esse delírio ontológico nos faz pensar que só o fato do aluno estar diante de um professor já exime o Estado de suas responsabilidades em empreender políticas reais, efetivas de valorização da educação.
Faz tempo que o Estado potiguar se auto alforriou da obrigação de implementar uma política educacional de qualidade. Faz tempo que não há interesse, por parte do poder público em pôr em uma mesma sala de aula o filho do juiz e o filho da empregada doméstica. Faz muito tempo, que setores mais influentes da sociedade brasileira, se acostumaram a pensar que o espaço da escola pública é um espaço de uma educação pobre para o povo pobre.
Esse é um modo perverso de manter aquela velha ordem aristocrática de poder social, na qual filhos de famílias bem dotadas economicamente tem a concorrência por posições sociais diminuída em função do desnível, do descompasso, entre a educação que lhes é oferecida e a educação que se oferece para os filhos dos empregados de seus pais.
Não é a greve, amigo velho, que produz o verdadeiro dano ao aluno da escola pública potiguar. Não são os professores, cansados de serem tratados como cidadãos de segunda classe, lançados pela lógica da exclusão na base da cadeia alimentar das profissões, que criam o dano real aos alunos desse estado. É essa sede, amigo velho, essa carência de cuidado, que nasce da omissão de uma sociedade que parece não estar muito a fim de levar a sério a educação de seus filhos. Uma sociedade que elege a muitas décadas governos produtores de greves, sucateadores de sonhos, moedores das esperanças de gerações e gerações de alunos potiguares.

sábado, 9 de julho de 2011

MATERIALISMO E CULTO À PERSONALIDADE: QUESTÕES A DISCUTIR

MATERIALISMO E CULTO À PERSONALIDADE: QUESTÕES A DISCUTIR

Mas aquela profecia, irritante como um mosquito, ficava ecoando na sua mente, até que Saturno, por fim, reconheceu-se também meio soturno:
- Será que uma vitória, nesse mundo, não pode ser nunca completa?
As 100 melhores histórias da mitologia

Aqui estou eu com meu banzo de fim de tarde e sem ninguém para conversar. Resolvo por isso me conectar a rede mundial de comutadores, “entrar na internet”. Passando pelos blogs da nossa cidade Olho D’água (que nome lindo este da nossa cidade, pura poesia, realmente somos privilegiados) tomo contato com as discussões acerca das obras em curso no município, informações postadas inicialmente pelo meu amigo Hugo Freitas.
Eu pessoalmente acho que esta administração tem realizado muitas obras no nosso município. Isto é fato. E não posso negar também que serão úteis para a população. O ponto no qual quero me reportar não é este. Nem tampouco as questões que colocarei se dirigem a pessoas em específico, mas discorrem sobre mentalidades que permeiam a convivência social e humana neste início de século e desde muito tempo. Que se tenha isto muito claro. Se me reportar a alguém e até citar nomes será porque estes desenvolvem suas atividades sendo tributários destas mentalidades, não porque são os únicos ou os piores, como se fossem os demônios a ser excomungados, extirpados por nós os santinhos. Esse tipo de mentalidade é tão perigosa quanto a qual tecerei algumas críticas a seguir.
Por que somos tão fascinados por prédios, concreto, objetos e cacarecos os mais diversos, a ponto dessas coisas muitas vezes nem mesmo servirem para uso, ou significar mais pelo fetiche que desempenham do que pela suas reais utilidades a nossas necessidades? Isso se deve, pelo que podemos entender mediante os mais diversos estudos feitos por muitos outros humanos, ao nosso apego a tudo aquilo que é material. O materialismo, e principalmente a posse e a sociedade privada foram os grandes nortes do empreendimento da secularização moderna da qual somos produto. O simbólico, o poético, passou a ser coisa de quem não tem o que fazer ou é meio “ruim das ideias”.
Para os defensores do materialismo, mesmo que o faça de forma quase inconsciente, o que importa é ter cada vez mais, é construir cada vez mais, pois a única coisa que vale e que é importante é aquilo que eu posso pegar e possuir, dizer que é meu e de mais ninguém. Instaura-se assim uma mentalidade tacanha que quer sempre mais e mais, é o endeusamento da matéria, tido como resolução para as nossas agonias mais recônditas - deixadas de lado, colocadas debaixo do tapete, e que a toda hora mostram sua face mais macabra e devastadora, pois nós não conseguimos nos livrar de nós mesmos, por mais que tentemos. Temos que enfrentar os nossos demônios a cada instante é isso que o texto bíblico nos mostra, muitas vezes, de forma alegórica.
Logo, meus amigos, a questão não é se se construiu pouco ou se se construiu muito e etc.. O fato é que isto não é o mais importante, justamente no momento atual que vive o mundo. O que as pessoas estão necessitando é de sentido para suas vidas, desse componente simbólico, mítico, poético, ligado ao sonho, tribal, de união, que deixamos lá atrás. Precisamos investir no humano que nos constitui e não na matéria.
Nesse instante estou assistindo a homenagem que a Assembléia Legislativa do RN está prestando aos 50 anos da campanha “De pé no chão também se aprende a ler” idealizada aqui no estado e que contou com a participação decisiva do educador brasileiro Paulo Freire. Imagine se Djalma Maranhão o gestor na época tivesse preferido construir prédios bonitos e modernos para poder pensar no projeto? Tinha saído? Jamais. O sucesso do movimento se deu justamente à iniciativa popular. Humildemente os coordenadores do movimento foram aprender com os descendentes de indígenas e com pescadores como fariam para construir de forma barata galpões grandes e seguros para se ministrar as aulas. E esses povos ensinaram a eles como fazer as palhoças, como dobrar a palha para cobrir e etc.. Isso sim é cidadania, pois o cidadão é parte do processo. Essas práticas comunitárias são criadoras de pluralismo e não de egoísmo, este nefasto sentimento que se manifesta inevitavelmente quando está presente a posse e o materialismo. Precisamos de educação e de práticas que contemplem a pluralidade.
Um exemplo de egoísmo nós presenciamos no São João deste ano em Olho D’água, situação protagonizada pelo músico e compositor Dorgival Dantas. Para a grande maioria dos que estavam lá, a conclusão foi uma só (pelo menos para aqueles com os quais conversei, e que não foram poucos) sobre a fala do artista (parecia querer dizer): não importa o que tenha acontecido, não importa o que eu faça, vocês têm que me reverenciar, pois eu sou Dorgival, eu estou acima do bem e do mal. Eu sou um astro, e vocês o que são?
Diga-se de passagem, não é a primeira vez que este sanfoneiro que tem origens em Olho D’água demonstra sua faceta prepotente e arrogante: lembram de quando ele pediu uma reunião na Câmara Municipal para dizer que ele era a única solução para a cidade? Pois é. Ninguém questiona que ele galgou os degraus do sucesso. Mas meu caro Dorgival, nós não precisamos de herói, nós não acreditamos mais em herói. A cada instante está mais claro para as comunidades humanas – e daí as revoltas no mundo todo, contra os sistemas políticos e etc. – que o bem e o justo não são as únicas coisas de que os humanos são parte. Esse entendimento parece brotar do inconsciente coletivo das massas, contra governantes e demais representações, segundo alguns estudiosos.
Como também não agrada mais tanto essa noção de amor da qual você julga ser um representante e que declara tanto por nossa cidade – que, aliás, não tem a credibilidade que eu acho que pensa, basta perguntar aos habitantes. A noção de amor para muitos mudou. Se amo uma pessoa, por exemplo, não é porque acredite que ela me tem como seu motivo incondicional para existir, mas porque vejo que tem condições de enfrentar comigo as batalhas – sem perder a ternura jamais, é claro - tanto externas como internas, porque entendo neste instante, que é a pessoa certa para enfrentar ao meu lado, e vice-versa, a fatalidade que é a vida. O amor hoje é entendido mais como um processo, como vivência, do que como uma quimera, uma peça retórica de discurso.
Portanto meus amigos, o que precisamos de fato não é de materialismo e de culto à personalidade, mas de atenção. Tenhamos atenção, sejamos vigilantes, pois a humanidade parece sofrer de uma carência de atenção. As manifestações estão por toda parte justamente porque os representantes da sociedade seja no plano político, social, artístico e etc., não estão conectados, em ressonância, com o apelo das massas, e em contrapartida o povo passa a desconsiderar, com razão, tais representações. É nesse sentido que, à pergunta da epígrafe do inicio deste texto, feita pela figura mitológica Saturno, diria: não, felizmente a vitória nunca é completa! Sempre haverá algo a ser dito. Por isso gosto muito da colocação do pensador francês Michel Foucault:

"O discurso não é a vida: seu tempo não é o de vocês; nele, vocês não se reconciliarão com a morte; é possível que vocês tenham matado Deus sob o peso de tudo que disseram; mas não pensem que farão, com tudo o que vocês dizem, um homem que viverá mais que ele."

Sintam-se abraçados.

Profo Adaécio Lopes