segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

“NÃO SABIA SE ERA UM SÁBIO CHINÊS SONHANDO SER UMA BORBOLETA, OU UMA BORBOLETA QUE SONHAVA SER UM SÁBIO CHINÊS”

Saiu de casa.

No trajeto, um encontro.

- Todos na verdade poderão ser artistas, argilas artesãs de si mesmas. Na verdade esse é o sentido verdadeiro da arte: sermos. Não é algo para ser possuído, guardado em um baú para ser mostrado em certos momentos.

- Eu adoro a maior banda dos últimos tempos. Até mesmos os ainda maiores artistas de todos os tempos falam que ela é a melhor hoje. E concordo com você a música não é um baú, nela as pessoas devem ser. Por isso a maior banda dos últimos tempos está sendo a maior banda.

- Você acha que poderia ser um artista?

- Acho que não. Os artistas são aqueles que fazem sucesso. Não me vejo fazendo sucesso para ninguém. Não vejo alguém sendo meu fã, por exemplo. Isso não é para mim não. Acho que artista bom mesmo é quem consegue fazer sucesso, sabe. Quem traz diversão, animação. Não penso muito nisso, apenas sei quando uma coisa está fazendo sucesso. Todo o mundo sabe não é mesmo, não precisa pensar nisso.

Seguiu pela vereda que passa ao lado da grande árvore.

Um novo encontro.

- Por que eles anseiam tanto por ídolos?

- Eles são necessários, na verdade inevitáveis.

- Mas a formação da idolatria é justamente o que forma aquela capa-rosa na cacimba da fonte. É na verdade a raiz do mau que habita todo o ser, que faz surgir a busca pelo número. Tal prática não deveria existir.

- Mas porque estás tão preocupado? Não seria você também um procurador do número?

- Não. Apenas não quero que exista a busca!

- Mas como? De onde surgiria seu ponto de apoio? A sua agonia e o número são partes da mesma coisa. Um não existe sem o outro.

- E se se cavalgasse à velocidade da luz?

Rompeu o rio de dentro, seguiu pela vereda que passa ao lado da cajazeira da velha cacimba abandonada ...

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

A PIPOCA

Por Rubem Alves

A culinária me fascina. De vez em quando eu até me até atrevo a cozinhar. Mas o fato é que sou mais competente com as palavras do que com as panelas.

Por isso tenho mais escrito sobre comidas que cozinhado. Dedico-me a algo que poderia ter o nome de "culinária literária". Já escrevi sobre as mais variadas entidades do mundo da cozinha: cebolas, ora-pro-nobis, picadinho de carne com tomate feijão e arroz, bacalhoada, suflês, sopas, churrascos.

Cheguei mesmo a dedicar metade de um livro poético-filosófico a uma meditação sobre o filme A Festa de Babette que é uma celebração da comida como ritual de feitiçaria. Sabedor das minhas limitações e competências, nunca escrevi como chef. Escrevi como filósofo, poeta, psicanalista e teólogo — porque a culinária estimula todas essas funções do pensamento.

As comidas, para mim, são entidades oníricas.

Provocam a minha capacidade de sonhar. Nunca imaginei, entretanto, que chegaria um dia em que a pipoca iria me fazer sonhar. Pois foi precisamente isso que aconteceu.

A pipoca, milho mirrado, grãos redondos e duros, me pareceu uma simples molecagem, brincadeira deliciosa, sem dimensões metafísicas ou psicanalíticas. Entretanto, dias atrás, conversando com uma paciente, ela mencionou a pipoca. E algo inesperado na minha mente aconteceu. Minhas idéias começaram a estourar como pipoca. Percebi, então, a relação metafórica entre a pipoca e o ato de pensar. Um bom pensamento nasce como uma pipoca que estoura, de forma inesperada e imprevisível.

A pipoca se revelou a mim, então, como um extraordinário objeto poético. Poético porque, ao pensar nelas, as pipocas, meu pensamento se pôs a dar estouros e pulos como aqueles das pipocas dentro de uma panela. Lembrei-me do sentido religioso da pipoca. A pipoca tem sentido religioso? Pois tem.

Para os cristãos, religiosos são o pão e o vinho, que simbolizam o corpo e o sangue de Cristo, a mistura de vida e alegria (porque vida, só vida, sem alegria, não é vida...). Pão e vinho devem ser bebidos juntos. Vida e alegria devem existir juntas.

Lembrei-me, então, de lição que aprendi com a Mãe Stella, sábia poderosa do Candomblé baiano: que a pipoca é a comida sagrada do Candomblé...

A pipoca é um milho mirrado, subdesenvolvido.

Fosse eu agricultor ignorante, e se no meio dos meus milhos graúdos aparecessem aquelas espigas nanicas, eu ficaria bravo e trataria de me livrar delas. Pois o fato é que, sob o ponto de vista de tamanho, os milhos da pipoca não podem competir com os milhos normais. Não sei como isso aconteceu, mas o fato é que houve alguém que teve a idéia de debulhar as espigas e colocá-las numa panela sobre o fogo, esperando que assim os grãos amolecessem e pudessem ser comidos.

Havendo fracassado a experiência com água, tentou a gordura. O que aconteceu, ninguém jamais poderia ter imaginado.

Repentinamente os grãos começaram a estourar, saltavam da panela com uma enorme barulheira. Mas o extraordinário era o que acontecia com eles: os grãos duros quebra-dentes se transformavam em flores brancas e macias que até as crianças podiam comer. O estouro das pipocas se transformou, então, de uma simples operação culinária, em uma festa, brincadeira, molecagem, para os risos de todos, especialmente as crianças. É muito divertido ver o estouro das pipocas!

E o que é que isso tem a ver com o Candomblé? É que a transformação do milho duro em pipoca macia é símbolo da grande transformação porque devem passar os homens para que eles venham a ser o que devem ser. O milho da pipoca não é o que deve ser. Ele deve ser aquilo que acontece depois do estouro. O milho da pipoca somos nós: duros, quebra-dentes, impróprios para comer, pelo poder do fogo podemos, repentinamente, nos transformar em outra coisa — voltar a ser crianças! Mas a transformação só acontece pelo poder do fogo.

Milho de pipoca que não passa pelo fogo continua a ser milho de pipoca, para sempre.

Assim acontece com a gente. As grandes transformações acontecem quando passamos pelo fogo. Quem não passa pelo fogo fica do mesmo jeito, a vida inteira. São pessoas de uma mesmice e dureza assombrosa. Só que elas não percebem. Acham que o seu jeito de ser é o melhor jeito de ser.

Mas, de repente, vem o fogo. O fogo é quando a vida nos lança numa situação que nunca imaginamos. Dor. Pode ser fogo de fora: perder um amor, perder um filho, ficar doente, perder um emprego, ficar pobre. Pode ser fogo de dentro. Pânico, medo, ansiedade, depressão — sofrimentos cujas causas ignoramos.Há sempre o recurso aos remédios. Apagar o fogo. Sem fogo o sofrimento diminui. E com isso a possibilidade da grande transformação.

Imagino que a pobre pipoca, fechada dentro da panela, lá dentro ficando cada vez mais quente, pense que sua hora chegou: vai morrer. De dentro de sua casca dura, fechada em si mesma, ela não pode imaginar destino diferente. Não pode imaginar a transformação que está sendo preparada. A pipoca não imagina aquilo de que ela é capaz. Aí, sem aviso prévio, pelo poder do fogo, a grande transformação acontece: PUF!! — e ela aparece como outra coisa, completamente diferente, que ela mesma nunca havia sonhado. É a lagarta rastejante e feia que surge do casulo como borboleta voante.

Na simbologia cristã o milagre do milho de pipoca está representado pela morte e ressurreição de Cristo: a ressurreição é o estouro do milho de pipoca. É preciso deixar de ser de um jeito para ser de outro.

"Morre e transforma-te!" — dizia Goethe.

Em Minas, todo mundo sabe o que é piruá. Falando sobre os piruás com os paulistas, descobri que eles ignoram o que seja. Alguns, inclusive, acharam que era gozação minha, que piruá é palavra inexistente. Cheguei a ser forçado a me valer do Aurélio para confirmar o meu conhecimento da língua. Piruá é o milho de pipoca que se recusa a estourar.

Meu amigo William, extraordinário professor pesquisador da Unicamp, especializou-se em milhos, e desvendou cientificamente o assombro do estouro da pipoca. Com certeza ele tem uma explicação científica para os piruás. Mas, no mundo da poesia, as explicações científicas não valem.

Por exemplo: em Minas "piruá" é o nome que se dá às mulheres que não conseguiram casar. Minha prima, passada dos quarenta, lamentava: "Fiquei piruá!" Mas acho que o poder metafórico dos piruás é maior.

Piruás são aquelas pessoas que, por mais que o fogo esquente, se recusam a mudar. Elas acham que não pode existir coisa mais maravilhosa do que o jeito delas serem.

Ignoram o dito de Jesus: "Quem preservar a sua vida perdê-la-á".A sua presunção e o seu medo são a dura casca do milho que não estoura. O destino delas é triste. Vão ficar duras a vida inteira. Não vão se transformar na flor branca macia. Não vão dar alegria para ninguém. Terminado o estouro alegre da pipoca, no fundo a panela ficam os piruás que não servem para nada. Seu destino é o lixo.

Quanto às pipocas que estouraram, são adultos que voltaram a ser crianças e que sabem que a vida é uma grande brincadeira...

"Nunca imaginei que chegaria um dia em que a pipoca iria me fazer sonhar. Pois foi precisamente isso que aconteceu".

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

“OS HOMENS DE BEM AMAM, OU PELO MENOS NÃO ADULAM”

Estive esses dias na comunidade Cardosos, adjacência do município de Olho D’água do Borges, RN, minha cidade natal, por ocasião de uma cantoria de violas realizada pela associação comunitária daquela localidade.
Cresci escutando meu pai falar: “cantador de viola pequeno só canta bajulação”. Não entrarei no mérito dos dotes artísticos dos cantadores, mas pude mais uma vez comprovar o que meu velho pai costuma falar. A bajulação corria solta. Nesse momento decidi colocar um mote para que cantassem – embora já desconfiasse que não o cantariam:


Eles querem mandar e controlar
O destino e a tal felicidade


Como antevisto, não cantaram este mote. Concordo com o grande repentista Ivanildo Vilanova, tal posição bajulatória vai no contrafluxo da profissionalização e respeito à figura do cantador. É um tiro no pé. Mas a covardia é parte do ser humano. Como forma de comprovar que o tema poderia ser cantado, fiz a seguinte estrofe a caminho de casa:

Com a política jamais nós chegaremos
A trilhar as veredas da verdade
Pois seu tema de interesse é o poder
Pincelando pitadas de maldade
Comprando com seu dinheiro sujo
Humilhando, matando a hombridade
Eles querem mandar e controlar
O destino e a tal felicidade.


Essa situação me fez pensar mais uma vez sobre certas questões relacionadas à convivência, que não são de agora, mas de longa data na vivência dos humanos. Uma grande coincidência foi o fato de o amigo Hugo Freitas ter me dado como presente esses dias o livro A Política do pensador grego Aristóteles (384 – 322 a.C.). O que inclusive é parte de outra coincidência, pois recentemente comecei a dar uma olhada na obra deste filósofo, em especial na sua Física.

É no livro A política que ele coloca que a democracia pode gerar a pior de todas as tiranias: a consentida. Ao estudar muitos dos sistemas de governo daqueles tempos, Aristóteles conclui que “a tirania ama os maus, já que ama a lisonja, vício à qual jamais se abaixa o homem que tenha um coração livre. Os homens de bem amam, ou pelo menos não adulam”. Em outro ponto do livro ele vai tratar da relação da política com a lei, e sobre questões relacionadas á Lei Divina e a lei dos homens:

“querer que a lei [divina] mande é querer que Deus e a razão mandem sós; mas dar a superioridade ao homem é dá-la ao mesmo tempo ao homem e á fera. O desejo tem qualquer coisa de bestial. A paixão corrompe os magistrados e os melhores homens. A inteligência sem paixão, tal é a lei”.

Por mais que já se tenha passado muito tempo essa é uma questão fundamental quando se discute política. Vivemos o tempo do homem pelo homem, e como coloca com bastante propriedade o pensador Tage Lindbom em O mito da democracia, este sistema de governo não consegue se livrar da noção de poder, embora tente a todo custo convencer de que o faz - só assim pode empreender seus conchavos e maracutaias de forma livre e desimpedida (se perguntados sobre suas ações, respondem: “nós já vencemos o mal, somos a democracia, somos o bem e cuidamos do bem de todos”). E como a democracia não canaliza a noção de poder para a verticalidade, pulveriza-o entre os homens, gerando o egoísmo e todos os males que conhecemos, como a guerra de todos contra todos. Segundo Lindbom, Jean Jacques Rousseau teria tentado resolver isso através do volátil conceito de Vontade Geral presente em O Contrato Social, sem obter êxito.

Em contrapartida, a história nos mostra que os impérios religiosos também tiveram seus problemas. E aí, cara pálida? Como sair deste impasse?

Então, como chegarmos a tal inteligência sem paixão mencionada por Aristóteles?

Seria a saída, por exemplo, as microcomunidades, o nomandismo e o tribalismo pós-moderno de que fala o sociólogo francês Michel Maffesoli, onde os sincretismos de todos os tipos conviveriam em harmonia, regidos pelas leis do instante, podendo inclusive brotar daí uma genuína relação com o sagrado, sem o peso secular das instituições já conhecidas, mesmo que muitas vezes baseadas nas suas metáforas e narrativas míticas?

O fato é que, não podemos fazer a Terra parar para decidirmos essas coisas, como cantou um dia o visionário Raul Seixas. Conquanto, ao que parece esse reinado do homem não tem sustentação. Como pode um homem acreditar totalmente em outro homem, considerando-o sua imagem e semelhança, principalmente, no que toca à conduta?

Neste instante, lembro das colocações feitas por Aristóteles em A Poética, onde ele declara que a poesia não deve se restringir a imitar, descrever e quantificar a realidade, mas deve justamente ir em busca de algo que não nos pertence, sinalizando para o reino do possível, das infindáveis possibilidades. Esse entendimento vale também no que toca à política, ou melhor, ao convívio social.

E, diga-se de passagem, o social não nos libertará, ele é apenas um estágio necessário ao convívio. Aquilo foi o pensamento de uma certa revolução sobre a qual estudamos nos livros de história. Os encontros e relações sociais, em um contexto de superação daquele entendimento trazido pelo Iluminismo, seriam encontros apenas, entre pessoas que buscam a verdade, em um sentido interior, pessoal. Talvez fosse isso que Rousseau – considerado, pela história, um teórico da Revolução Francesa - queria fazer entender, algo semelhante ao que aquele filósofo grego chamou de inteligência sem paixão, mas é quase impossível tratar de uma coisa, seja ela qual for, quando a galera quer entender outra (disso entendia muito bem o velho Platão, “a mais linda planta da Antiguidade”, segundo Nietzsche).

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

COMUNICADO

Aqueles que quizerem se comunicar com o administrador deste blog para dúvidas, sugestões, troca de idéia ou algo nessa linha, poderão mandar e-mail para adaecio.lopes@gmail.com.



Valeu.

sábado, 7 de janeiro de 2012

OS VERDADEIROS POETAS NÃO BUSCAM O SUCESSO, MAS O SUBLIME

Um dos mais belos poemas de Mário Quintana (1906 - 1994) poeta talvez ainda pouco conhecido do público brasileiro, eu diria ser justamente aquele intitulado “O poeta”:

Venho do fundo das Eras,
Quando o mundo mal nascia ...
Sou tão antigo e tão novo
Como a luz de cada dia!

O sucesso existe. Não podemos fugir desse fato. O que não pode acontecer é perdermos o senso devido a onda que vem com este fenômeno, ou o que é mais absurdo, que esta onda sirva justamente como justificativa para que deixemos o bom senso de lado. Da mesma forma que o totalitarista nega o tempo do outro, o fanático nega o seu próprio tempo e a si mesmo. O fã muitas vezes se anula para viver o outro. E isso, no mínimo, é algo preocupante, pois cada um de nós é um portal diante do cosmos, e não podemos, nem conseguiremos negar este fato sem que isso nos cause graves conseqüências de cunho psicológico. Devemos analisar as coisas, inclusive as coisas feitas por pessoas, e não criar um lobe a favor de algo apenas porque esse algo faz sucesso ou porque é feito por alguém que nasceu na mesma localidade em que nascemos.

A verdadeira obra de arte é aquela que se liberta de seu criador e o liberta, e guia outros em processo de busca. Sinaliza para o indizível, para o eterno, sendo o testemunho do voo libertário do artista. Mas acontece que de forma matreira a cultura de massa se apropria de alguns elementos da cultura genuína para ganhar credibilidade. Recentemente na novela Cordel Encantado, que de cordel não teve praticamente nada, tivemos um exemplo de tal manobra.

Logo, o verdadeiro artista é um aventureiro que anseia e guia ao reino do simbólico. Ele não busca o sucesso, já que isso é justamente o que mais dificulta o seu processo de busca, pois o sucesso lhe traz amarras, obriga-o a seguir tendências, modismos, distanciando-o do seu anseio interior. Não é para ser seguido, mas compreendido.

O sucesso é deste mundo. O poeta, de outro mundo.

Diria que a música de massa está em uma categoria diferente da música genuína porque fica na superfície, não está a serviço da grande obra, esse é o seu problema. É feita para entreter, imitar, servindo muitas vezes ao ridículo. É um fim em si mesma, porque é caricata, limitada, não deixa espaço para a construção, para certa comunicabilidade libertária para a qual a grande arte abre as portas. Pois, a arte não deve imitar a realidade, mas ser aquele anjo que nos arrebata do mesmo de cada dia, nos levando ao reino do sublime, do eterno, do absoluto, nos impulsionando ao salto, à liberdade.

A arte genuína é de outro mundo. É impossível não ser arrebatado ao se escutar, por exemplo, a peça Quase Fantasia, de Ludwig van Beethoven. Ou um poema de Patativa, de Cancão do Egito, ou de Inácio da Caatingueira. Ou se pudéssemos escutar ainda a rabeca de Fabião das Queimadas. São obras verdadeiras. Estão impregnadas de verdade.

E o que é ainda pior do que tudo é que a cultura de massa está comprometida com o financeiro, seu interesse é estritamente monetário, dos grandes palcos, dos grandes shows, das grandes apresentações midiáticas, onde o externo e a aparência, o personalismo passam a ser mais importantes do que a essência, do que a mensagem a ser passada. O embelezamento toma o lugar do belo. O artista genuíno, o poeta, o músico no sentido mais absoluto do termo, diferentemente disso, é como um raio de luz, para usar uma metáfora física einsteiniana, sua ação flui sem precisar de causas determinantes, como as elencadas acima.

A música já fora considerada uma linguagem sagrada, mas se tornou atualmente, em muitos contextos, apenas uma base melódica para a linguagem escrita, que diga-se de passagem, muitas vezes não tem praticamente nada de poético.

Tive conhecimento recentemente, por intermédio do amigo Pablo, de um poeta norteriograndense por nome Miguel Cirilo. Além de ser portador de uma poética forte e transcendente, esse poeta me despertou a atenção por vários outros motivos, um destes o fato de ter decidido não se fazer presente ao relançamento de um livro que tinha lançado na juventude, intitulado Os elementos do caos. Na ocasião mandou uma carta intitulada Carta aos poetas potiguares, explicando os motivos da ausência.

Portanto, o poeta é esse ser meio encantado, construtor de realidades, um buscador, em certa medida, um profeta. Entende a cada acontecimento que esse instante é uma passagem, se esforçando cada vez menos para aprisioná-lo. Busca justamente se conectar com o todo, e não eternizar a ilusão, pois como disse um dia um poeta espanhol por nome Antônio Machado,

Caminhante não há caminho,
Se faz caminho ao andar ...

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

OLHANDO AS LUZES DOS FOGOS, LEMBREI DO "POEMA DE FIM DE ANO" DE MÁRIO QUINTANA

Quadro Esperança, do pintor inglês George
Frederick Watts (1817-1904)


Lá bem no alto do décimo segundo andar do Ano

Mora uma louca chamada Esperança:

E quando todas as buzinas fonfonam

quando todos os reco-recos matracam

quando tudo berra quando tudo grita quando tudo apita

A louca tapa os ouvidos

e

atira-se

e – ó miraculoso vôo! –

Acorda outra vez menina, lá embaixo, na calçada.

O povo aproxima-se, aflito

E o mais velhinho curva-se e pergunta:

– Como é teu nome, menininha dos olhos verdes?

E ela então sorri a todos eles

E lhes diz, bem devagarinho para que não esqueçam nunca:

– O meu nome é ES-PE-RAN-ÇA...

A ARTE DEVE SER MUITO MAIS DO QUE IMITAR AQUILO QUE CHAMAMOS VIDA




OS IMORTAIS

Por Diego Cazabat

Presente em http://www.grupomoitara.com.br/c200_por.php?ac=mostratextoreflex&id=14


O ator é aquele que faz. Só se faz no presente. Estar no detalhe é estar presente.

A construção desse detalhe, é a construção de presente. O estar presente é o efêmero passo por esse detalhe. Nisso radica seu valor. O ator é sujeito e objeto do que faz. Seu fazer fundamental é estar receptivo.

Em sua ação está disposto a perdê-lo todo, essa é sua virtude. Em sua ação fina e sutilmente estruturada, construída nos detalhes, sua energia circula de maneira diferente porque, já decidido, realiza um trabalho que não é cotidiano, em conseqüência a energia que gera e circula nesse trabalho tampouco é.

Por momentos violenta seu mundo para logo acariciá-lo e sabe que em seu retrocesso aprende, por isso não tem autocompaixão.

É um homem de ação e na ação rigorosa e precisa conhece, se conhece. Sabe que o que não dá, quita. Cada ato que comete contém um segredo e isso faz de seu ato algo transcendente.

É paciente e em sua espera alerta, entende que não tem tempo.

A emoção não o domina, sua ação rigorosa modela-a.

Percebe em seu presente todos os momentos transcorridos. Não tem fórmulas, mas sabe tudo o que faz e tem que fazer. Tem seu trabalho.

Como uma vez contou um caminhante, ser imortal não é viver para sempre, ser imortal é ser intenso no ato e essa é a revelação.

A revelação tem seu oposto e essa é a resistência. O trabalho preciso e impecável é sobre a resistência. Esta manifesta-se de muitas maneiras e sempre ronda. O ator "cria" as circunstâncias para que seu trabalho apareça. A circunstância mais potente que conheço é o grupo. O grupo é um lugar de confiança onde tudo pode ocorrer. É um lugar para estar só e acompanhado. É um gerador de necessidades. O trabalho gera mais trabalho e a preguiça mais preguiça. O ator é aquele que faz e em seu fazer encontra o sentido. Sua ação é o sentido e sua aceitação. Em aceitar-se está sua batalha. Aceitar-se é estar presente.